sábado, 25 de março de 2017

Vícios...

Tava pensando em vícios...

Ter um vício é algo complicado, porque qualquer coisa pode ser ou se tornar um vício... Qualquer coisa. Mesmo!

Quer ver?

Algumas pessoas têm vícios de linguagem... Falam várias e várias vezes as mesmas palavras... Tipo paulista, que fala ‘tipo’... Ou ‘mano’... Tudo é ‘mano, alguma coisa...’ Tipo assim, sabe? Às vezes isso irrita, às vezes a gente nem percebe, entende, mano?

Outras pessoas tem vício em fumar, beber, comer... E esses vícios aí a gente muitas vezes nem percebe como vícios, né? Chega uma hora que vira hábito, coisa de dia a dia... Além disso, teoricamente (bem... teoricamente mais ou menos, né?), esses vícios aí são aceitos pela sociedade... Bom, depende. Às vezes é melhor fumar um cigarro que usar crack, né? Daí você diz que isso é meio óbvio... Dããã...

Eu concordo. É bem menos pior, lógico, mas o que realmente diferencia um do outro, de verdade mesmo, é o grau de aceitação e “viciamento” (ah, eu adoro neologismos esdrúxulos!). Afinal, 2 pedrinhas de crack já viciam. Agora, o cigarro... Pfff... Tem que ter um certo grau de interesse e vontade pra viciar... Porque, olha... Só quem já fumou ou experimentou um cigarro sabe. Dá uma dor de cabeça, uma zonzeira, uma desvontade de fumar... Bom, se bem que eu nunca experimentei a pedrinha pra saber. E espero continuar assim. Mas a ciência mostra que pouquinho é suficiente, tamanha é a sensação de prazer na primeira tragada... Deve ser tenso... Então, a partir daí dá pra pensar que deve ser bastante complicado pra largar. E com o cigarro não é diferente... Afinal, qualquer um contribui com seu vício: a indústria, os amigos, a cidade, os medos, os hábitos, as emoções... Até o cara que tá parado no ponto de ônibus fumando te ajuda quando você não tem um cigarrinho pra matar a vontade que surge enquanto espera o ônibus chegar. Daí, é batata! É só acender que chega o ônibus! Parece mágica!

E com a bebida não é lá assim tão diferente... Precisa um certo esforço pra viciar, porque a sensação no dia seguinte é péssima! A cabeça parece ser composta por uma orquestra sinfônica revoltada cheia de violinos e violoncelos desafinados e mal tocados, trompetes e trombones desajustados e por aí vai... Agora, para largar o vício, pronto! Fácil, fácil... Nem tem gente no bar disposto a pagar uma dose quando você tá sem grana. Os amigos nunca te convidam para uma geladinha no final de semana ou mesmo aquele churrasco ou festinha em família que quase nunca tem uma cervejinha, uma caipirinha ou, pelo menos, um vinhozinho... Mas, é vinho! E vinho pode.

Agora me fala da comida... Gente, gente...

Comida você tem em casa, todo dia, toda hora. Cigarro e bebida você tem que sair pra comprar (ou fazer estoque, o que sai bem caro), mas comida?

Cara, comida... Comida é, tipo assim, básico, né?

(Certo, eu tenho vícios de linguagem. Normal. Todo mundo tem. Eu não sou perfeita (nem quero ser), apesar de muita gente pensar que eu ‘me acho’, sabe?... Ai, ai...)

Bom, eu tava falando de comida, né?

Então...

Comida é complicado, porque a gente come todo dia, né? Às vezes, toda hora. E, às vezes, nem percebe.

Pode ser um feijão com arroz, pode ser uma carne, uma panela de brigadeiro ou um pacote de balas de goma... Tudo entra na categoria comida, não é? E o refrigerante? Ah! Aquela coca-cola© geladinha, da garrafinha de vidro, suando, recém-aberta, que faz até aquela coceirinha no nariz, cheinha de gás e sabor... Que delícia!

Meu! (Ah, essa é uma das ‘gírias’ paulistas...)

Você deve estar pensando que sou meio doida, né?

É, eu sei, parece mesmo. Eu amo comer! E olha que nem faço isso desde que nasci... E devo fazer até morrer, provavelmente. (Espero que sim, porque ficar comendo por sonda é um saco! Você nem sente o gosto de nada... Coisa chata!)

Eu cursei NUTRIÇÃO, né? Sendo assim, eu deveria te dizer que você comer frutas, legumes e verduras, que você tem que evitar pães e coisas feitas com trigo (tipo pizza e macarrão! Senhor!), leite e seus derivados (tem lactose, né? Lactose engorda, né? Sei...), arroz (porque arroz engorda, o legal é tapioca! Tapioca não tem glúten! Rá!)

Historinha, hein! Isso aí pode funcionar para uma ou outra pessoa... Pessoas que REALMENTE precisam de alguns cuidados alimentares.

Mas, olha, se você se enquadrar em qualquer situação de doença que exija restrição alimentar, você PRECISA de acompanhamento nutricional. Não de site na internet nem médico maluco que te mande “cortar carboidrato” e comer um monte de gordura - ou um monte de qualquer outra coisa. Daí junto você coloca um suplementozinho, porque é legal tomar whey – seus rins agradecem, com certeza. Ah, fora o sabor delicinha...

Gente, eu acho ‘lindo’ quando vejo algumas dietas e ‘prescrições’ fantásticas para “perder 78,2 kg em 27 dias”! Coma isso, não coma isso. Beba isso, não beba aquilo. Suplementa. Não, não suplementa. Carbo não pode, proteína é liberado. E agora a nova onda é o ‘low carb, high fat’. Cara, a galera às vezes nem sabe o que isso significa!

E olha que já vi anúncio de emprego escrito que a nutricionista tinha que ter conhecimento em dietas LHCF... Triste demais!

Tá, eu sou chata. E irônica. Sou mesmo. Mas eu não restrinjo meus pacientes. Minhas crianças (de 60 anos ou mais, de qualquer outra idade também) comem de tudo e emagrecem, hein! Uma delas emagreceu 5 kg em 2 meses! E eu nem pedi pra ela parar de comer pão...

E sabe por quê?

Porque restringir não funciona!

E substituir grupo alimentar menos ainda.

Porque se você para de comer tudo o que você come e troca por outras coisas, é lógico que vai ter redução do peso. Mas para a ‘dieta’ para ver. Engorda tudo de volta. Às vezes até mais. E nem adianta falar que não, porque é a mais pura verdade. Vai dizer que nunca aconteceu com você?

Olha, vou contar um negócio aqui, em OFF, só entre nós.

Eu falei que sou nutri, né? Então... Eu também sou operada do estômago. Aquela tal cirurgia bariátrica, sabe? Faz 11 anos que operei. E aí vêm as perguntas do tipo, “nossa, mas você precisava mesmo? Parece tão bem...” ou então “nossa! Mas emagreceu? Deu certo?” (tipo desconfiando, sabe?, porque eu tenho um biotipo grande, então não me encaixo nos padrões... Nunca usarei 38.). Entretanto, eu normalmente respondo que sim, emagreci e daí, com orgulho e honra, eu mostro uma foto 3x4 minha, de uns 3 meses antes de operar... E falo que naquela foto eu tava pesando na casa dos 130 kg (oh!)...

Tipo, é meio que impossível conter um assobio e um arregalar de olhos, né? As olhadas comparativas são inevitáveis.  É, eu sei. E, toda vez que vejo essa foto eu lembro de tantas, mas tantas coisas... De antes e de depois... Das razões que me levaram a querer operar (e nenhuma delas era estética, hein!), dos medos, do processo de recuperação imediato e das mudanças pra vida... E, além disso, da minha dificuldade em me relacionar com a comida (mas isso aí persiste, hein!)... E é inevitável que surjam comentários do tipo “nossa, mas você tá muito bem agora, né? Mais magra, mais bonita...”

E eu, como de praxe, respondo que isso aí é o de menos, mas lógico que é importante, né? Senão eu não teria feito um negócio tão drástico assim... Só de pensar que atrasei a chegada do diabetes, ou das dores nos joelhos e, espero, consiga atrasar mais um pouquinho, já vale a pena...

Mas, claro, tem sempre a galera que acha que operar é ser fraco, porque não teve FFF (força, foco, fé)... Aham... Sei...

Quero ver ter uma família que gosta de comer e que manda muito tem na cozinha. Uma vó que faz uns docinhos de arrasar... Quero ver você pensar, aos 18 anos, que aos 60 você pode ter um infarto enquanto come aquele churrasco delicioso, ou aquele croissant de chocolate...

Ah, a pizza aos quatro queijos, se é magrinho pode, né?

Mas se é gordo, esquece! Você é, automaticamente, doente.

Deve viver de água e alface – igual nutricionista, aliás. Porque, olha... Tem gente que acha que nutricionista é fiscal de prato e que vive de água, alface e vento ou que faz fotossíntese...

Quero ver você ter vários problemas, um monte de vícios e muita influência e dar conta de tudo isso e emagrecer uns 40 ou 50 quilos em um ano sem resolver tudo isso. E tudo isso ao mesmo tempo, hein! Porque, senão, isso é coisa de gente fraca, sem força, foco e fé...

Tá... Vai me dizer que FFF resolve...

Sabe o que resolve?

Resolver seus problemas com você, com seu corpo, com sua mente, com seu espírito. Resolve se entender que não é o que se come, mas como, quando e quanto se come. Afinal, não é o que eu como entre o Natal e o Ano Novo que me engorda, mas o que eu como entre o Ano Novo e o Natal.

Em 2014 eu recebi um diagnóstico de esteatose hepática. Aquela famosa ‘gordura no fígado’. E eu conhecia MUITO BEM a terapêutica. Pra isso não tem remédio, viu? Sabe como faz? Arruma a alimentação e se movimenta. Só. E com isso, eu mandei embora 14 quilos em 10 meses. Mas, daí, com um monte de problemas psicológicos, depressão, tristeza extrema e todo o stress do último ano da faculdade, inclusive noites bastante mal dormidas, reganhei 10.

E aí quando fui conhecer um pouco do que tinha estudado sobre Alimentação Consciente e Intuitiva, descobri minha verdadeira vocação: Comportamento Alimentar. E estudando, aprendi pra mim. Aprendi para ajudar quem precisa e muita gente precisa, só não sabe que precisa (na maioria das vezes).

Melhorei a minha relação comigo, com a comida e aceitei que é assim. Que restrição não resolve nada.

Que se você quer emagrecer, você precisa encontrar, dentro de você, o real motivo para isso. É pra você ou para os outros? Será que você realmente precisa?

E se você gosta de uma comida, seja um doce ou um salgado, porque não pode? Só porque “engorda”? Será mesmo? Ou existe uma condição de saúde que te obriga a não comer determinado alimento?

Vícios são complicados, né? E, às vezes, a gente fica meio viciado em estar viciado no que não deveria, né?

Ou você come escondido porque os outros vão pensar no que quer que seja e isso te deixa mais ansioso/a e com mais medo e daí acaba comendo mais ainda?

São todos vícios, né?


Já reparou? 

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