quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

As sensações ao redor da comida

Sempre vivi rodeada por comida.
Eu gosto de comer, de preparar, de sentir o aroma, o sabor... Gosto ainda mais de usar a comida para agradar àqueles que gosto e/ou amo - por isso adoro cozinhar para a família, para os amigos, e para o companheiro do coração. E me frustro quando alguém, para quem eu preparei algo, não come. Não gostar não é o problema. O problema é não comer. É como se me desse uma bofetada.

Mas, nem todos são assim. Alguns têm uma relação mais sossegada, outros mais desassossegada, com a comida e assim cada um vai levando.

No meu TCC do aprimoramento trabalhei adesão ao tratamento nutricional com pacientes obesas de um modo indireto - utilizando a Terapia Comportamental, ou, de outro ponto de vista, uma abordagem terapêutica diferenciada, onde falamos sobre hábitos alimentares, consumo, comportamento alimentar, atividade física e tantas outras coisas. 

Meu trabalho foi com idosas. Todas elas com mais de 60 anos. A integrante mais velha do grupo tem 78 anos. E comparece à todos os encontros. Sempre vai sozinha. E sempre participa. A maioria delas só estudou até a 4ª série do ensino fundamental (o antigo primário), algumas só sabem assinar o próprio nome. Falar sobre comportamento, emoção, sentimento e comida para essas moças é uma delícia, ao mesmo tempo que é bastante complicado.

Em uma das reuniões falamos sobre fazer as pazes com o corpo e com a comida - e da relação intrínseca que existe entre o que sentimos e o que comemos.




E é interessante perceber como poucas delas compreenderam a relação intensa que existe entre essas duas razões: comer E sentir. E o mesmo ocorre com outras tantas pessoas - independentemente da idade.


Quantas vezes já partimos atrás de um alimento qualquer por conta de uma emoção não percebida, não verbalizada, não aceita? 

Independentemente de qual seja, em diversos momentos do dia, da semana, do mês ou da vida, recorremos ao chocolate, ao doce, ao pão, ao bolo... Qualquer coisa que esteja disponível, de frente pra gente, ou escondida na gaveta da cômoda, do guarda-roupas ou do criado mudo. Guardado lá justamente para estes momentos, e, mesmo que não surjam os momentos que nos levam a comer, comemos porque está lá.

Ansiedade, medo, dor, angústia, felicidade, tristeza, alegria, euforia, sono... Tédio...

Nada disso é FOME. Isso são sensações. Emoções. Algumas percebidas, outras não. Algumas nos levam a comer mais, a buscar mais comida - seja ela qual for. E, depois disso, pela bronca de já ter 'metido o pé na jaca', aí é que acabamos detonando e comemos tudo mesmo - só de raiva!


Perceber o que sentimos, como sentimos e como nos relacionamos com a comida vai muito além de controlar as sensações, a ansiedade e comer só o "recomendado".

Perceber o que sentimos é sentir e relacionar isso com as situações da vida - pregressa, atual e futura. É notar o quanto a família nos ajuda na formação dos hábitos e preferências alimentares. E, além da família, os amigos, os colegas de trabalho, o tempo que vivemos no transporte... Em tudo o que vivemos há influências na nossa psiquê. Do mesmo modo que a gente também deixa marcas nos outros - sejam quais forem. 

Positivo e Negativo existe em TUDO na vida.

Há algum tempo percebo o quanto os outros deixam marcas em mim. E essas marcas se refletem nas situações do meu dia a dia. E se refletem nas pessoas com as quais convivo - a principal delas eu mesma. 

Não é feio, ou ruim, assumir que está triste ou com raiva e por isso está comendo - ou deixando de comer. Ainda menos se a escolha ou o excesso se der por conta de estar ansiosa ou preocupada com alguma coisa. É preciso compreender isso. 



E, para compreender, é preciso SENTIR. Reconhecer as emoções que estão dentro de nós, aceitá-las e e compreender que, muitas vezes, elas nos levam a escolhas que fazemos mesmo sem perceber e acreditamos que fazemos porque gostamos. 

Ok, gostar de alguma coisa é normal. Comer essa coisa de modo compulsivo, apenas por comer, é que não é. 

Ninguém vive chutando ou batendo a cabeça na parede a todo momento. Portanto, não é normal viver o tempo todo pensando em comer. O que quer que seja.

Sinta, pense, considere, avalie seus sentimentos, suas emoções, suas sensações.

Esse pode ser o primeiro passo para perceber que, talvez, a sua relação com a comida, seja ela qual for, precise de mudanças - para mais ou para menos.

E busque um profissional nutricionista que utilize esta abordagem, para que possa auxiliá-lo a trilhar esse caminho. Não é fácil olhar para dentro de si e ver amor demais, mas mal direcionado. Ou ver tristeza demais, sem motivo aparente. Ou ver incapacidades que talvez não existam. Tanto é possível... E o acompanhamento conjunto com um profissional psicólogo vai auxiliar ainda mais. 

O caminho é longo e complexo, mas é possível de se trilhar. 

É um passo de cada vez. 

Não se sobe uma escada de uma vez, não é mesmo? 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Finitude e Vida...

No último domingo, enquanto esperava o ônibus, fiquei observando um pomba que buscava alimento em meio ao lixo.

Consideramos esse tipo de animais irracionais e então eu fico pensando até que ponto a nossa racionalidade nos é benéfica. Até que ponto ela nos favorece e nos permite trilhar bons caminhos e termos boas atitudes.

Até que ponto a nossa racionalidade nos permite aceitar as coisas como elas são. Aceitar que há coisas que nunca estarão ao nosso alcance controlar.

Neste momento me surgiram dois conceitos interessantes. E talvez seja interessante observar sob um prisma diferente.

Um dos conceitos é o de finitude. Por definição temos que finitude é
  1. qualidade, propriedade ou condição do que é finito;
  2. fato de ser qualitativamente finito, limitado.
Seres vivos são finitos. Afinal, a morte é uma condição da vida. É a única certeza presente a partir do momento em que nascemos. 

É a uma das poucas coisas da vida com a qual não sabemos lidar. E, não saber lidar com a perda, com a finitude nos leva a um patamar complicado, onde são desencadeados sofrimento, angústia, depressão e tantos outros sentimentos que não seria possível nomeá-los.

Isso faz parte da vida. 

Em situações naturais ou não, a morte estará sempre presente.

O outra conceito é o de vida. E ninguém precisa de dicionário para saber sua definição. 

Estar com vida é uma condição incrivelmente fantástica, porém tão corriqueira que não damos a devida atenção ao que precisamos para nos mantermos vivos. Para nos mantermos bem.

Manter uma boa qualidade de vida passa por diversos aspectos, entre eles, a boa alimentação, a saúde emocional, socialização, bem estar.

Falando de saúde emocional podemos pensar nas doenças que mais têm sido diagnosticadas e, algumas vezes, até de modo precipitado, medicadas. Não que depressão e ansiedade não necessitem de medicamentos. Mas, talvez, apenas talvez, uma terapia consiga resolver e, aos poucos, sem usar medicamento, a pessoa consiga se recuperar. Depressão e ansiedade surgem, na maioria das vezes, por não percebermos e não valorizarmos nossos limites e nossas vontades. Ficamos pensando e andando em círculos, na vontade de que algo aconteça do modo como desejamos - mais uma vez, uma situação que não está ao nosso alcance.

Falando de socialização, cada vez mais estamos fechados e presos em celulares e tablets, vivendo vidas virtuais. E as crianças já vivem estas situações. E isso leva à dificuldade de lidar com as coisas da vida, provocando ansiedade, que pode levar à depressão. 

Um círculo vicioso?

E, claro, não poderia faltar, falemos de alimentação. Mas, mais do que isso, falemos de bem estar, de boas sensações, de alegria, de prazer.

Uma alimentação equilibrada nos favorece isso, e muito mais. Quando comemos de modo equilibrado, consumindo todas as comidas que precisamos e, também, as que desejamos, em quantidades adequadas para promover satisfação e que permita ter qualidade, nos sentimos bem. Nos sentimos felizes.

Quando fazemos uma dieta, nos restringimos, excluímos da nossa vida grupos alimentares inteiros, comidas que apreciamos, sem as quais não poderíamos viver sem, isso também provoca problemas.

Entre estes problemas, crises de ansiedade - que podem levar à depressão. E que, fatalmente, levam a quadros de compulsão alimentar. Vontades desesperadoras de comer justamente o que "é proibido".

Contar uma coisa pra vocês: isso leva à situações de doença. E, talvez, não apenas uma doença visível, palpável, mas emocional. Desequilibra todo o organismo. Então pode provocar muitas mudanças, e, quem sabe, piorar quadros já presentes de ansiedade, depressão, síndrome do pânico... E tantas outras coisas podem acontecer...

Existem coisas que estão fora no nosso alcance controlar. 

Nosso corpo, em grande parte por programação genética, está incluso. E não há dieta que modifique programação genética, biotipo. Você pode melhorar seus hábitos alimentares e melhorar seu estilo de vida, mas se seu corpo precisar ficar no peso X, ele vai continuar no peso X, mesmo que você corte um monte de coisas e depois volte a consumi-las. Isso é parte do que chamamos biotipo, programação genética.

Acredito que talvez seja o momento de compreendermos que as propagandas de "emagrecimento definitivo" são falsas e só existem porque as compramos como verdadeiras. 

É hora de tentarmos compreender que existem coisas que não deveriam se modificar, e entre essas está o seu amor próprio e autocuidado

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"Bariatricando"...

O Primeiro Consenso Brasileiro Multissocietário em Cirurgia da Obesidade iniciou suas atividades em novembro de 2004. Pelo Consenso Bariátrico, endossado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) existem alguns critérios para que se possa realizar a cirurgia - bastante conhecida pela alcunha de "Redução do estômago", mas que na verdade envolve algumas pequenas mudanças a mais, além da redução, propriamente dita, do estômago - tais como estreitamento do esôfago e desvio de uma boa parcela do intestino (isso na técnica mais comum que é a de Fobi-Capella ou Bypass em Y-de-Roux).

Em 2013 foram realizadas algumas pequenas mudanças, mas principalmente à necessidade de equipamento e equipes nos hospitais onde se realizam as cirurgias.

Nas imagens abaixo, retiradas do site do G1 (em matéria publicada em 2013, veja a matéria completa aqui), dá pra se ter uma ideia do quanto é invasiva e da probabilidade de reganho de peso. Isso sem falar em outras complicações no pós-cirúrgico tardio.


Tipos de cirurgia realizados no Brasil.


Mas, minha ideia hoje não é falar sobre as vantagens e desvantagens de tal procedimento. Vantagens essa que cada indivíduo avalia conforme a sua própria percepção, aliás. E suas necessidades, claro!

Quando pensei em escrever sobre isso, pensei em falar sobre a qualidade de vida, a redução de peso e alguns critérios, talvez não tão interessantes.

Hoje percebi que faltam 70 dias para completar 11 anos de cirurgia bariátrica. 11 ANOS. É tempo... Uma pré-adolescente, praticamente... hehehehe 

Conheço muita gente que operou, e outros tantos que querem operar. Conheço gente que foi tudo bem e a vida segue numa boa. Conheço gente (eu inclusa) que teve alguns problemas decorrentes da cirurgia, num pós-operatório tardio. 

E, a partir disso, fico me perguntando sobre o que acreditamos realmente ser qualidade de vida. Será que a perda de peso está REALMENTE associada à maior qualidade de vida?

Me graduei em 2015 como nutricionista. Vejo os dois lados: como pessoa, ex-obesa, bariátrica, cheia de necessidades de acompanhamento clínico (como vários outros bariátricos), necessidade de alteração de comportamento alimentar e estilo de vida, fatores psicológicos associados (depressão, ansiedade, etc...) e como profissional nutricionista, que estuda, tenta e busca compreender mecanismos fisiológicos e justificativas para a obesidade enquanto doença e fator predisponente de outras doenças crônicas. Sendo que já há estudos e trabalhos científicos de grande relevância que não classificam a obesidade como doença.

Além de estudar isso, fui atrás de entender diversas outra situações. Fui estudar Comportamento. Uma linha de estudo que muitos associam exclusivamente à Psicologia, mas que, na realidade, envolve tudo onde há um indivíduo inserido, entre eles o ato de comer.

As informações que recebi durante esses 4 anos de faculdade foram boas, mas não foram suficientes [para mim], pois sabendo que não é apenas o consumo alimentar exagerado que promove aumento de peso corporal, eu acredito e quero conhecer os outros fatores. Se fosse apenas o consumo alimentar em excesso, TODAS AS PESSOAS que comem e não engordam também seriam obesas, certo? Mas, isso não acontece. E existem explicações para isso, mas que não vêm ao caso aqui.

Somos categorizados como obesos, basicamente, por um cálculo que envolve 2 valores: Peso e Altura. Ponto. É um IMC acima de 25 kg/m² que o classifica com excesso de peso em algum grau e, consequentemente, como doente. Pois, às vistas da maioria da população e da maioria da classe médica, TODO GORDO É DOENTE.

Até aí, ok, mas cabem ressalvas. Afinal, o que caracteriza um quadro de doença é o estilo de vida que leva a alterações nos marcadores biológicos e metabólicos, não o peso. Sabe por quê? Porque se colocássemos um halterofilista sobre uma balança e calculássemos seu IMC, o resultado seria, certamente, algum grau de excesso de peso. Ao mesmo tempo que, provavelmente, o IMC de um corredor poderia indicar peso abaixo do normal (o que acontece com milhares de pessoas ao redor do mundo, mas que a medicina entende como saudáveis graças aos seus corpos magros e IMC baixo).

Estilo de vida gente. Isso, pra mim, reflete qualidade de vida e saúde.

Sabe... Depois desses 11 anos, e de várias situações intercorrentes, decorrentes, em alguns casos, da cirurgia, coloquei em xeque a melhora do quadro geral pós cirurgia. E eu não sou a única. Vários especialistas questionam. Ao mesmo tempo que vários outros endossam sua importância.

A cirurgia mais comum, o bypass gástrico, é uma cirurgia de grande porte, bastante invasiva, e que provoca alterações em um dos sistemas mais importantes do organismo - o digestório

Com as mudanças no processo de digestão e absorção, todo paciente operado é OBRIGADO a fazer suplementação de micronutrientes, leia-se vitaminas e minerais.

Ou seja, um comprimido ou cápsula para o resto da vida.

Além disso aí, muitos precisam suplementar ferro e vitamina B12 por injeções - daquelas nada agradáveis. Só a agulha do Noripurum® tem 100 mm, afinal, deve ser aplicado intramuscular profundo (na nádega, tá?). Isso quer dizer 10 cm de ferro (ou aço, sei lá) enfiado num dos lados do seu bumbunzinho lindo 1, 2, 3 ou 4 vezes por mês, dependendo do grau de anemia que você desenvolver. Isso se não for necessário fazer um coquetel com tudo isso aí pra tomar por via endovenosa - vulgo "na veia" uma vez por mês, ou mais.

Bom, fora isso, tem o acompanhamento clínico, né?

Ah, e ainda há aqueles que precisam fazer outra cirurgia depois: a colecistectomia. Popularmente chamada de retirada da vesícula.

Na boa, eu detesto ir em médico e tomar remédios. Detesto. Mas, desde que operei, 1 vez por ano tem endoscopia e ultrassom de abdome. Todo dia tem comprimido e as benditas cápsulas de vitamina D. De vez em quando precisa de uma injeção de B12 e mais de vez em quando ainda, de ferro. Exames de sangue a cada 3 ou 6 meses. Agora descobrimos uma osteopenia importante (quase uma osteoporose), então agora também tem densitometria óssea uma vez por ano. Sem contar os dentes, unhas e cabelos fracos. E não adianta muito tomar remédio pra isso - é caro e com a baixa absorção, tem pouca efetividade.

E o risco sempre constante de deficiências nutricionais, sem contar as cãimbras, os entalos, engasgos, dumping e tudo mais associado... E às vezes tudo junto.

Operei com 123,7 kg. Em 7 ou 8 meses, fiquei contente com meus 85 kg, mas o clínico falou que eu iria emagrecer mais. Em um ano estava com 73,8 kg. Magra, porque minha estrutura corporal é grande.

Hoje, olhando algumas referências (da década de 80, que ainda são utilizadas e divulgadas imprudentemente) pra tentar escrever esse texto sem ser tão agressiva e ter alguma base teórica, vi que meu "peso ideal" seria de 60-62 kg. Cara, eu estaria parecendo um cadáver ambulante. Sério. Sério mesmo!

Durante a minha gravidez, por N fatores associados à dificuldade de comer o suficiente e de comer com uma certa regra de horários, engordei 19,8 kg. 5 anos depois, estava com um diagnóstico de esteatose hepática grau II (também conhecida por "gordura no fígado"). Já no penúltimo ano da faculdade, sabia qual era o tratamento para isso: reeducação alimentar e atividade física.

E, agora, tendo estruturado minha linha terapêutica optando por atuar na linha de Comportamento Alimentar, tendo minhas ideias a respeito do quanto está envolvido no comer, nas influências e nas várias questões que provocam a escolha e o consumo de comida, sei bem que isso é o que deveria ser feito MUITO ANTES de se cogitar realizar uma cirurgia desse porte.

Não é tão rápido, claro, mas é muito mais efetivo. E melhor. Afinal, a redução de peso, não sendo o objetivo terapêutico direto, é mais controlada, preservada e sua mente e seu corpo não ficam sofrendo com tantas mudanças repentinas e agressivas.

Resumindo, se fosse hoje, eu não operaria. Salvo, realmente por exceção, se houvesse um risco de vida iminente. Fora isso, dá pra dar jeito. E um jeito bem dado.

Mas o que está feito, está feito e não pode ser desfeito, visto meu risco cirúrgico por outros fatores da vida (que só vim certificar no último ano) e agora é conviver com isso.

Qualidade de vida, saúde e essas cobranças relacionadas de peso e tamanho corporal não tem tanto assim a ver entre si quanto parece.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Li um artigo e...

Encontrei informações bastante interessantes.
Nada conclusivo, obviamente, como de praxe. Aliás, como deveria ser de praxe - UM artigo/estudo, ainda que tenha relevância, não deve apresentar conclusões, mas sugestões e, a partir dele, ampliar. 

É um artigo da Revista Lancet, que fala sobre a Nutrição Pré-Natal, Condições Sócio-ambientais e Desenvolvimento Infantil.

Em 2016 eu resolvi escrever um livro sobre Alimentação para Bebês, baseada na minha experiência enquanto mulher, mãe, nutricionista, pessoa. E, apesar de todas as dificuldades dos primeiros seis meses, do primeiro ano, e de todos os outros dias até aqui, continuamos nas tentativas e no acerto e erro de cada dia. Na próxima semana, meu bebê completa 7 anos e 4 meses. E seguimos nos desafios.

Pelas influências minhas e de todos os que convivem ou conviveram comigo, sempre acreditei que alguns padrões de pensamentos não deveriam (e não devem) ser únicos. E que suplementar a alimentação, nem sempre, é apenas suficiente, tanto quanto é necessário em diversos casos.

Por protocolo mundial, durante a gestação é necessária a suplementação de Ferro e Ácido Fólico (vitamina B9 ou Folato). Na realidade, essa suplementação deveria ter início até uns 90 dias antes da concepção, para a futura mãe já entrar no processo gestacional com reservas adequadas ao desenvolvimento fetal. 

Apesar disso, o foco desse artigo vai muito além disso.

O texto do autor aponta que muito mais se precisa além disso. 

"Em The Lancet Global Health, Prado e co-autores3 acompanharam o grande estudo SUMMIT de micronutrientes múltiplos na Indonésia e analisaram o efeito da suplementação de micronutrientes múltiplos pré-natal (MMN), bem como as associações entre outras condições biomédicas e socioambientais precoces e a cognição das crianças acompanhadas da idade de 9-12 anos. Os pesquisadores avaliaram diferentes aspectos do desenvolvimento cognitivo: capacidade intelectual geral, memória declarativa, memória processual, função executiva, desempenho acadêmico, destreza motora fina e saúde socioemocional."

É necessário um ambiente adequado para o desenvolvimento dessa criança. São necessários estímulos, desde o início da gestação, para que a criança tenha um desenvolvimento pleno. E não apenas micronutrientes. Claro, como o próprio autor cita, 

"Recomenda-se a obtenção de evidências da força relativa de efeitos para os micronutrientes e de associações com outras condições biomédicas e socioambientais para o desenvolvimento. As condições socioambientais, como a educação dos pais, o nível socioeconômico, o ambiente doméstico e a depressão materna, pareciam ser determinantes mais importantes do que os determinantes biológicos medidos."

Porém, talvez seja necessário avaliar os tantos outros aspectos que envolvem o desenvolvimento cognitivo de uma criança - partindo desde a concepção, passando pelo nascimento, a primeira infância, a socialização e a partir de que idade esta socialização se inicia, em que época e através de qual método é iniciada sua alfabetização...

Então, acredito ser bastante plausível quanto o autor questiona se

"É seguro dar apenas micronutrientes múltiplos quando a ingestão de alimentos é insuficiente?"

Pois, muitas vezes, em vários países, estados e cidades no mundo, há escassez de alimentos ou, quando muito, escassez na variedade destes alimentos. O que talvez não justifique que suplementar é inútil, não, mas que deve ser dada maior atenção a esta mãe. E com esta maior atenção, melhor acesso a alimentos em quantidade e qualidade variadas e adequadas.

O autor finaliza apontando que 

"A nova Estratégia Global da ONU para a Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente 2016-309 enfatiza que todas as mulheres, crianças e adolescentes devem ter oportunidades iguais de prosperar e apela a um novo conjunto de prioridades globais de pesquisa. Precisamos melhorar as intervenções e melhorar Seu impacto. Precisamos de mais estudos de acompanhamento de intervenções precoce, como o estudo de Prado e colegas. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável exortam as famílias, as sociedades e os atores globais do desenvolvimento a empenharem-se em cuidar e fornecer oportunidades de aprendizagem. Esses esforços devem ser amplos e incluir saúde, nutrição, educação e proteção à criança. As intervenções devem ser fornecidas ao longo do ciclo de vida. Os programas nacionais e globais são necessários para enfrentar este desafio. Investimentos substanciais no desenvolvimento infantil são a base para o desenvolvimento sustentável nos próximos anos."

Então, a partir disso,  talvez seja bastante plausível questionar se apenas suplementar ferro e ácido fólico é suficiente. 

Talvez seja muito mais interessante garantir alimentação, hidratação, acesso a cuidados de saúde adequados para a mãe, mesmo antes de a mulher engravidar.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Saúde é...

Até que tá ficando bom esse negócio de ter ideias frequentes para escrever... Ou inspiração. 

Esses últimos dias andei conversando com muita gente a respeito de body positive, de ter uma visão mais amorosa e carinhosa com o próprio corpo e o quanto a mídia, a sociedade, a cultura da moda e a indústria da dieta nos fazem acreditar que isso só acontecerá se formos magros.

No meu texto anterior, falo sobre a questão de ser ou não saudável e o quanto isso não está relacionado com ser ou estar magro ou acima do peso.

Hoje, pesquisando imagens de silhuetas femininas para um projeto, não consegui encontrar imagens de silhuetas femininas que representassem mulheres gordas. Mas, para qualquer outro padrão que envolva corpos femininos magros, existe uma variedade enorme.


Inclusive, de silhuetas que fazem alusão à necessidade de emagrecimento... 

Na boa, essas mais gordinhas estão lindas... :) Adorei o vestido! 

Mas, pesquisando um pouco mais, a gente até encontra, uma imagem ou outra que representam esse perfil, mas tem que dar uma garimpada, viu?  

E ainda haverá quem diga que estou sendo 'mimizenta' e que pra ser saudável é necessário emagrecer...

Mas quando buscamos a definição de saúde, recebemos o seguinte texto: "A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e ão consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade."

E sabem que imagens lindas eu achei?



Pensando nisso, acredito que precisamos nos dar mais crédito e tentar menos nos enquadrar em padrões estéticos e modísticos que, muitas vezes, não são os mais adequados para o formato natural de nossos corpos.

E, mais ainda e além disso, pensar que a Nutrição não é a Ciência do Emagrecimento

A Nutrição não é exata. É humana; e da saúde; e biológica; e social. E ela merece um textão só pra ela. :)

Ser feliz com o que se tem e do modo como se é, por muito tempo foi uma afronta aos padrões (e de certo modo ainda é) e muita gente está preparada para criticar de modo cruel e ferrenho. O que nos cabe, à cada ser único e individual e nos grupos em que está inserido, é tentar a cada dia se permitir, se aceitar, se amar... E ser feliz! :)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Body Positive... Ou seja quem e como você quiser ser.

A pessoa chega na nutricionista, aquele carão, morrendo de vontade de nem ter entrado na sala/consultório.

E já solta um "Ok, nutri, passa a dieta! Vai tirar o quê, o pão, o macarrão, o arroz, minha cervejinha com os amigos?  Vai me mandar pra academia que eu sei... Eu preciso mesmo emagrecer né? Olha essa pança! [E aí puxa, ou tenta puxar, a pele da barriga pra justificar essa fala]

E, oh, contar uma coisa pra vocês... Isso não acontece só com gente nova não, viu?
Tem muita pessoa adulta e idosa que chega com esse discurso. Mas a grande maioria é de mulheres. Fato. Os homens chegam com um discurso mais de saúde ou "porque o médico mandou mas eu não sei o porquê, porque EU NÃO PRECISO EMAGRECER".
E aí tu pesa o velho e dá um IMC de 36, 37... Até pra idoso, isso é obesidade.

Ok, mas o assunto aqui não é obesidade. Nem idosos.

O assunto aqui é  COMO VOCÊ SE VÊ.

Tem gente magra que acha que é gorda e aí faz o que? Dieta.

Tem gente gorda, aterrorizada pela família/amigos/vizinhos, que vai atrás de dieta.

Tem gente na academia, mas muitos não estão lá para fazer uma atividade física que lhes dê prazer. Estão lá para emagrecer. E tome dieta. Nesse caso cheia de batata doce e filé de frango porque PODE... Ah, e tem whey também. Esquece fígado e rins. Associa um detox que tá lindo! :~~

Cara, será que ninguém consegue mais olhar para o corpo do outro e ignorar seu formato? Enxergar a pessoa que existe ali, de verdade?

Cada um é como é e como quer ser e ninguém tem nada com isso. Exceto o próprio dono do corpo em questão - que é quem vai sofrer os amores e desamores de ser quem é.

Ser mulher já é uma 'minipremissa' de "ter que ser magra". Porque "ser magro é ser saudável." Só que não!

Se for uma mulher gorda então... Tá liberado geral todo e qualquer um falar que precisa emagrecer, afinal, "como vai arrumar um namorado gorda desse jeito?"

Ou assim, "você tem um rosto tão lindo, porque não emagrece?  Será que não pensa na sua saúde?"

Agora, se é o cara, o sujeito homem, ele pode ser um pouco mais 'cheinho', porque homem 'grande' protege. A saúde dele não interessa a ninguém. Seu rosto até pode ser lindo, mas ninguém dá a dica pra ele emagrecer.

Ao mesmo tempo, se é magro demais, e entra na academia,  é o frango, o fracote, que não aguenta se colocar uma anilha a mais de cada lado. Mas vai o cara gordo pra academia pra ver? A zoação é imensa se ele não vai pros aparelhos e só faz esteira... Mas ninguém chama ele de frango. Apesar dos risos apontarem o contrário.

E, além do mais, o gordo aprende que "todo gordo é engraçado", e aí via o palhaço da turma, mesmo sem querer. Mesmo chorando por dentro e querendo sumir do mundo.

Gente, tá mais que na hora de parar de criticar, "dar dicas", se "preocupar com a saúde da galera"...

As pessoas são como são... E cada um é como é. E todos são lindos, cada um à sua maneira. E todos também tem histórias, sentimentos, vontades, verdades, amores, dores...

Tá mais que na hora de pensar em si. Mas que tal sermos gentis?
Que tal um elogio, ao invés da crítica?

Seus olhos, seus cabelos, seu modo de pensar, seu modo de se vestir, seu estilo, suas unhas, seu gosto musical, seu gosto para filmes ou séries... O jeito de conversar com outra pessoa, sua positividade, seu sorriso... O bolo maravilhoso de chocolate com cobertura que só você sabe fazer... Ou pode ser o de fubá, ou de cenoura... É dá pra comer sem culpa e com muito amor - por si e pelo bolo [ou qualquer outra comida]...

Todos somos belos, mas estamos deixando que nos digam o contrário e estamos permitindo que isso nos faça sentir menos e menos e menos... Estamos acreditando que temos mais defeitos que qualidades.

E pra mudar isso, não tem que emagrecer não.

Nem todo gordo é saudável, nem todo magro é doente. E o oposto também se aplica.

Estar acima do peso, com mais gordura corporal ou não, traz consequências para o corpo físico a longo prazo, mas isso não quer dizer que seja necessariamente feio, doente...

Minha adolescência e boa parte da minha vida adulta, cansei de ouvir tudo isso. Depressão, tristeza, raiva, sensações de incapacidade, dores...

E, pensando na saúde, há 10 anos e 10 meses operei o estômago. Mais mudanças, elogios, dores, remédios, cuidados e acompanhamento clínico constante. Mais depressão, mais raiva, mal humor... Mas a gente é forte e tem que dar conta. E tenta deixar os outros para lá. Só o travesseiro ou o ralo do chuveiro conhece a verdade.

Mas os outros não te deixam pra lá. E tome crítica - porque você foi fraco,  sem FFF (foco, força, fé) e precisou de artifícios para emagrecer e melhorar algumas coisas que já estavam começando a ficar ruins. Behhh!
Falei que magro é saudável?

Emagrecer, para quem é muito gordo, pode trazer melhora nas doenças que estão se instalando, mas sabe o que acontece antes?

Você MODIFICA hábitos alimentares. RETIRA excessos. Passa a se MOVIMENTAR mais.

E isso se chama modificar COMPORTAMENTO.

MEV. Uma sigla no meio clínico que significa Mudança de Estilo de Vida.

E MEV ajuda qualquer um a melhorar e, de quebra, se sentir bem consigo, sabe por quê?

Porque você passa a prestar mais atenção em você. Nas suas vontades, na sua saciedade, no seu humor, no seu querer. E deixa os outros de lado, falando sozinhos se assim ainda quiserem.

Ser como é, não é crítica, menos ainda demérito.
Magros ou muito magros, gordos ou muito gordos, atrapalhados ou não, cristãos ou não, conhecedores de informática ou não, manjando tudo do que quer que seja ou não.

Cada um é como é. E tá legal ser assim. E se amar e se curtir assim.

E essa conversa que te deprecia ou te entristece, não é pra você.

Pra você é só amor. Seu corpo funciona do modo que precisa, no peso que precisa, no tempo que precisa. Ele é seu e de mais ninguém. (A não ser que você resolva doá-lo para estudo, daí muda de dono mesmo.)

Me dizer que ser magro é ser saudável, quando vejo tantos magros vivendo de fast food, passando o dia sem uma movimentação física qualquer, vivendo de cerveja e cigarros... Ok. Tem gordos que fazem isso também. Isso, sim, é, provavelmente, não ser saudável.

Mas o tamanho do corpo que faz isso, sozinho, não é sinônimo de falta de saúde, quiçá de doença.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Fofos, porém nem tanto...


The same!
Migrei pra cá... :)

Ok, já faz algum tempo... A ideia de fazer postagens regulares está indo por água abaixo... Mas, vamos lá que a vida segue.

Este foi um dos ótimos livros que li em 2016. Técnico, porém nem tanto, onde a autora fala sobre "A Tirania das Dietas" - Dois mil anos de luta contra o peso. E neste livro ela traz MUITA informação histórica sobre os conceitos a respeito do peso corporal, regras alimentares e/ou dietéticas, palpites e muita gente que fez muita grana com base no terrorismo - alimentar e corporal.

E, claro, obviamente, eu volto a questionar padrões, indicações, comportamentos. E me autoquestionar sobre as minhas crenças e minhas condutas e comportamentos alimentares - inclusive aquilo que indico/oriento aos meus pacientes [lembrando que atuo principalmente com idosos, o que torna um pouco complicado de ir pelo comportamento].

Continuo acreditando no fator pessoal, mas agora sei que há muito mais o que se questionar, cobrar e, consequentemente, mudar.

Um dia qualquer de manhã, no serviço, falando sobre uma coisa qualquer, falamos sobre 'focar' no objetivo - Foca, amiga! Foca! E, logicamente, a minha mente vai longe e, automático, lembrei que a foca é um animal gordo e fofo e lindo! 


Quem resiste? <3



E essa carinha, gente, como faz?

Gente, tem como não achar um bicho desses lindo???


E aí, me surgiram outros animais, gordos e lindos! 



Lógico que há vários outros... Mas tem como não achar os ursos super lindos e fofos e tudo de bom? 

Quem nunca teve um urso de pelúcia e desejou ter o maior e mais fofo deles?

E daí eu me perguntei, em voz alta, porque apenas o ser humano não pode ser gordo e bonito...

Por que os padrões desenhados ao longo da história nos obrigam, principalmente às mulheres, a ser magros? Por que o magro é sempre visto como saudável?

Conheço tantas pessoas magras com níveis absurdamente altos de colesterol e triglicérides, diabéticos, com um péssimo hábito e comportamento alimentar... Mas, no momento em que vemos uma pessoa gorda se dirigindo a uma mesa de doces ou do que quer que seja a comida ali presente, automaticamente a julgamos e condenamos.

E nem precisa ser muito gorda pra isso, hein? 

E as cobranças dentro de casa, principalmente com as meninas?

"Nunca vai arrumar um namorado com esse peso" ou "Você tem o rosto tão bonito, por que não emagrece um pouco?"

Essas são as mais clássicas, mas há muitas outras formas de condenar um gordo.

Mas sabe o que é pior? 

Essa crítica, essa perseguição tresloucada à gordura corporal é tão abstrata... Tão pouco palpável em termos de ser ou não saudável, em termos de ser ou não uma pessoa ativa, bonita, amada, desejada... 

Como explicar exames de sangue impecáveis em um gordo? 
Ninguém acredita, nem os médicos. E ainda te olham com cara de interrogação...

Ou uma moça gorda que dança ballet, dança do ventre, pole-dance? 
Impossível, vão dizer. E, se bobear, nem é aprovada no teste pra entrar na escola, hein!

Ou aqueles atletas, gordos e extremamente fortes também?
Tipo, rugby, sumô, lançamento de dardo/peso...

Não dá, gente... 

O fato de uma pessoa ser gorda ou magra não a torna automaticamente doente ou saudável. Menos ainda faz dela uma pessoa bonita ou feia. Cada um tem a sua versão de belo, de feio, de desejável... 

Precisamos aprender que a dieta é o que comemos a cada dia, todos os dias, ao longo da nossa vida. Reeducar para melhorar é bom para todos. Alimentar-se de modo adequado, é benéfico para o corpo de um modo geral. Do mesmo modo, movimentar-se. 

Se isso vai fazer a pessoa perder ou ganhar peso, vai depender de como o corpo dela vai reagir com esse comportamento. 

Mas não dá para parar de comer. Ou substituir ou retirar um grupo alimentar do seu dia a dia. Salvo raras exceções (casos de doenças, alergias e intolerâncias), isso não é nada necessário.

E ter uma alimentação equilibrada te permite comer de tudo e, inclusive, matar uma vontade de vez em quando, sem se preocupar com o peso. 

Peso é consequência de hábitos ao longo da vida. Isso é o que deveria ser entendido e propagado aos sete ventos... Mas bora fazer o contrário pra deixar o povo em pânico. Pânico é mais legal, né?

O resto, é terrorismo da indústria para te fazer acreditar que você não é bonita (o) como é.

E, lógico, desembolsar uma grana para o bolso deles.

Fome de quê?

Tava no outro, migrei pra esse! Vamos ver se vai. ;)

Mais uma tentativa insólita de colocar em palavras meus pensamentos... Espero que dessa vez dê certo!


Pra chegar até o assunto que dá título ao post, preciso falar que ontem fui ao cinema e assisti um filme que queria muito ver. Fui tranquila. Por diversas e diversas vezes parei o carro naquela região sem intercorrência alguma, mas ontem, por infortúnio, ao voltar para o carro, este estava sem as duas rodas/pneus do lado direito - o lado de dentro, que fica pra calçada. 

Cara, que ódio que eu senti naquele momento. Raiva, medo, tristeza, insatisfação... Uma sensação de invasão, de abuso. Frustração e revolta. Meu coração ainda é bem forte, ainda bem, porque senão... 

E isso me leva à questão da fome... Afinal, tantas e tantas vezes descontei minhas emoções na comida e pra mim isso nunca foi novidade. Novidade foi perceber que mesmo conseguindo controlar meus sentimentos, minhas sensações, ainda assim, eu precisei do meu brigadeiro quente. Não ontem à noite, mas hoje, agora, no final da tarde. 

Como nutricionista, atuando na área comportamental, fui, aos poucos, percebendo em mim o que não conseguia ver e que se repetia há tempos: compulsão, desconto das emoções na comida, geralmente de forma bastante negativa. Aos poucos, desde o início do ano para cá, tenho estudado e trabalhado cada vez mais para conseguir enxergar e modificar alguns padrões de comportamento - em mim e em pacientes. Com a minha filha, inclusive (mas santo de casa não faz milagre, não é?).

E, com o susto de ontem, a raiva e a frustração, a vontade que tive quando cheguei em casa era de comer qualquer doce, especialmente chocolate, ou qualquer outra coisa que estivesse pelo caminho. Mas não fiz, porque sei que esse não é o caminho que resolveria meu problema. E, até chegar ao ponto de conseguir perceber isso em mim e tomar essa atitude, foram meses de muito estudo e observação.

Eu amo cozinhar e comer. Minha vida envolve comida em vários aspectos e é interessante perceber o quanto jogamos nossas emoções na comida, muitas vezes sem notar. E fazemos isso por anos a fio... E assim engordamos, mudamos nossos corpos e nossos hábitos alimentares para situações ruins e quando precisamos voltar atrás, o caminho é muito, muito árduo - mas não impossível de trilhar.

Conheço pessoas que descontam emoções na comida de outros modos. Outros descontam no excesso de atividade física. Outros de outras formas... Cada um tem um jeito de transpor as sensações e emoções, é claro.

Mas o interessante é observar como nos comportamos diante dos alimentos, da comida, em geral. Hábitos que se conservam por 5, 8, 10, 20 anos, são difíceis de serem modificados, mas não impossíveis.

Se observe.

Preste atenção no que você está comendo, em quem você é, em como trabalha suas emoções, seus sentimentos, seu querer ou não querer falar algo.

Você tem fome de quê?

E, se precisar de ajuda, estarei por aqui!