sábado, 25 de março de 2017

Vícios...

Tava pensando em vícios...

Ter um vício é algo complicado, porque qualquer coisa pode ser ou se tornar um vício... Qualquer coisa. Mesmo!

Quer ver?

Algumas pessoas têm vícios de linguagem... Falam várias e várias vezes as mesmas palavras... Tipo paulista, que fala ‘tipo’... Ou ‘mano’... Tudo é ‘mano, alguma coisa...’ Tipo assim, sabe? Às vezes isso irrita, às vezes a gente nem percebe, entende, mano?

Outras pessoas tem vício em fumar, beber, comer... E esses vícios aí a gente muitas vezes nem percebe como vícios, né? Chega uma hora que vira hábito, coisa de dia a dia... Além disso, teoricamente (bem... teoricamente mais ou menos, né?), esses vícios aí são aceitos pela sociedade... Bom, depende. Às vezes é melhor fumar um cigarro que usar crack, né? Daí você diz que isso é meio óbvio... Dããã...

Eu concordo. É bem menos pior, lógico, mas o que realmente diferencia um do outro, de verdade mesmo, é o grau de aceitação e “viciamento” (ah, eu adoro neologismos esdrúxulos!). Afinal, 2 pedrinhas de crack já viciam. Agora, o cigarro... Pfff... Tem que ter um certo grau de interesse e vontade pra viciar... Porque, olha... Só quem já fumou ou experimentou um cigarro sabe. Dá uma dor de cabeça, uma zonzeira, uma desvontade de fumar... Bom, se bem que eu nunca experimentei a pedrinha pra saber. E espero continuar assim. Mas a ciência mostra que pouquinho é suficiente, tamanha é a sensação de prazer na primeira tragada... Deve ser tenso... Então, a partir daí dá pra pensar que deve ser bastante complicado pra largar. E com o cigarro não é diferente... Afinal, qualquer um contribui com seu vício: a indústria, os amigos, a cidade, os medos, os hábitos, as emoções... Até o cara que tá parado no ponto de ônibus fumando te ajuda quando você não tem um cigarrinho pra matar a vontade que surge enquanto espera o ônibus chegar. Daí, é batata! É só acender que chega o ônibus! Parece mágica!

E com a bebida não é lá assim tão diferente... Precisa um certo esforço pra viciar, porque a sensação no dia seguinte é péssima! A cabeça parece ser composta por uma orquestra sinfônica revoltada cheia de violinos e violoncelos desafinados e mal tocados, trompetes e trombones desajustados e por aí vai... Agora, para largar o vício, pronto! Fácil, fácil... Nem tem gente no bar disposto a pagar uma dose quando você tá sem grana. Os amigos nunca te convidam para uma geladinha no final de semana ou mesmo aquele churrasco ou festinha em família que quase nunca tem uma cervejinha, uma caipirinha ou, pelo menos, um vinhozinho... Mas, é vinho! E vinho pode.

Agora me fala da comida... Gente, gente...

Comida você tem em casa, todo dia, toda hora. Cigarro e bebida você tem que sair pra comprar (ou fazer estoque, o que sai bem caro), mas comida?

Cara, comida... Comida é, tipo assim, básico, né?

(Certo, eu tenho vícios de linguagem. Normal. Todo mundo tem. Eu não sou perfeita (nem quero ser), apesar de muita gente pensar que eu ‘me acho’, sabe?... Ai, ai...)

Bom, eu tava falando de comida, né?

Então...

Comida é complicado, porque a gente come todo dia, né? Às vezes, toda hora. E, às vezes, nem percebe.

Pode ser um feijão com arroz, pode ser uma carne, uma panela de brigadeiro ou um pacote de balas de goma... Tudo entra na categoria comida, não é? E o refrigerante? Ah! Aquela coca-cola© geladinha, da garrafinha de vidro, suando, recém-aberta, que faz até aquela coceirinha no nariz, cheinha de gás e sabor... Que delícia!

Meu! (Ah, essa é uma das ‘gírias’ paulistas...)

Você deve estar pensando que sou meio doida, né?

É, eu sei, parece mesmo. Eu amo comer! E olha que nem faço isso desde que nasci... E devo fazer até morrer, provavelmente. (Espero que sim, porque ficar comendo por sonda é um saco! Você nem sente o gosto de nada... Coisa chata!)

Eu cursei NUTRIÇÃO, né? Sendo assim, eu deveria te dizer que você comer frutas, legumes e verduras, que você tem que evitar pães e coisas feitas com trigo (tipo pizza e macarrão! Senhor!), leite e seus derivados (tem lactose, né? Lactose engorda, né? Sei...), arroz (porque arroz engorda, o legal é tapioca! Tapioca não tem glúten! Rá!)

Historinha, hein! Isso aí pode funcionar para uma ou outra pessoa... Pessoas que REALMENTE precisam de alguns cuidados alimentares.

Mas, olha, se você se enquadrar em qualquer situação de doença que exija restrição alimentar, você PRECISA de acompanhamento nutricional. Não de site na internet nem médico maluco que te mande “cortar carboidrato” e comer um monte de gordura - ou um monte de qualquer outra coisa. Daí junto você coloca um suplementozinho, porque é legal tomar whey – seus rins agradecem, com certeza. Ah, fora o sabor delicinha...

Gente, eu acho ‘lindo’ quando vejo algumas dietas e ‘prescrições’ fantásticas para “perder 78,2 kg em 27 dias”! Coma isso, não coma isso. Beba isso, não beba aquilo. Suplementa. Não, não suplementa. Carbo não pode, proteína é liberado. E agora a nova onda é o ‘low carb, high fat’. Cara, a galera às vezes nem sabe o que isso significa!

E olha que já vi anúncio de emprego escrito que a nutricionista tinha que ter conhecimento em dietas LHCF... Triste demais!

Tá, eu sou chata. E irônica. Sou mesmo. Mas eu não restrinjo meus pacientes. Minhas crianças (de 60 anos ou mais, de qualquer outra idade também) comem de tudo e emagrecem, hein! Uma delas emagreceu 5 kg em 2 meses! E eu nem pedi pra ela parar de comer pão...

E sabe por quê?

Porque restringir não funciona!

E substituir grupo alimentar menos ainda.

Porque se você para de comer tudo o que você come e troca por outras coisas, é lógico que vai ter redução do peso. Mas para a ‘dieta’ para ver. Engorda tudo de volta. Às vezes até mais. E nem adianta falar que não, porque é a mais pura verdade. Vai dizer que nunca aconteceu com você?

Olha, vou contar um negócio aqui, em OFF, só entre nós.

Eu falei que sou nutri, né? Então... Eu também sou operada do estômago. Aquela tal cirurgia bariátrica, sabe? Faz 11 anos que operei. E aí vêm as perguntas do tipo, “nossa, mas você precisava mesmo? Parece tão bem...” ou então “nossa! Mas emagreceu? Deu certo?” (tipo desconfiando, sabe?, porque eu tenho um biotipo grande, então não me encaixo nos padrões... Nunca usarei 38.). Entretanto, eu normalmente respondo que sim, emagreci e daí, com orgulho e honra, eu mostro uma foto 3x4 minha, de uns 3 meses antes de operar... E falo que naquela foto eu tava pesando na casa dos 130 kg (oh!)...

Tipo, é meio que impossível conter um assobio e um arregalar de olhos, né? As olhadas comparativas são inevitáveis.  É, eu sei. E, toda vez que vejo essa foto eu lembro de tantas, mas tantas coisas... De antes e de depois... Das razões que me levaram a querer operar (e nenhuma delas era estética, hein!), dos medos, do processo de recuperação imediato e das mudanças pra vida... E, além disso, da minha dificuldade em me relacionar com a comida (mas isso aí persiste, hein!)... E é inevitável que surjam comentários do tipo “nossa, mas você tá muito bem agora, né? Mais magra, mais bonita...”

E eu, como de praxe, respondo que isso aí é o de menos, mas lógico que é importante, né? Senão eu não teria feito um negócio tão drástico assim... Só de pensar que atrasei a chegada do diabetes, ou das dores nos joelhos e, espero, consiga atrasar mais um pouquinho, já vale a pena...

Mas, claro, tem sempre a galera que acha que operar é ser fraco, porque não teve FFF (força, foco, fé)... Aham... Sei...

Quero ver ter uma família que gosta de comer e que manda muito tem na cozinha. Uma vó que faz uns docinhos de arrasar... Quero ver você pensar, aos 18 anos, que aos 60 você pode ter um infarto enquanto come aquele churrasco delicioso, ou aquele croissant de chocolate...

Ah, a pizza aos quatro queijos, se é magrinho pode, né?

Mas se é gordo, esquece! Você é, automaticamente, doente.

Deve viver de água e alface – igual nutricionista, aliás. Porque, olha... Tem gente que acha que nutricionista é fiscal de prato e que vive de água, alface e vento ou que faz fotossíntese...

Quero ver você ter vários problemas, um monte de vícios e muita influência e dar conta de tudo isso e emagrecer uns 40 ou 50 quilos em um ano sem resolver tudo isso. E tudo isso ao mesmo tempo, hein! Porque, senão, isso é coisa de gente fraca, sem força, foco e fé...

Tá... Vai me dizer que FFF resolve...

Sabe o que resolve?

Resolver seus problemas com você, com seu corpo, com sua mente, com seu espírito. Resolve se entender que não é o que se come, mas como, quando e quanto se come. Afinal, não é o que eu como entre o Natal e o Ano Novo que me engorda, mas o que eu como entre o Ano Novo e o Natal.

Em 2014 eu recebi um diagnóstico de esteatose hepática. Aquela famosa ‘gordura no fígado’. E eu conhecia MUITO BEM a terapêutica. Pra isso não tem remédio, viu? Sabe como faz? Arruma a alimentação e se movimenta. Só. E com isso, eu mandei embora 14 quilos em 10 meses. Mas, daí, com um monte de problemas psicológicos, depressão, tristeza extrema e todo o stress do último ano da faculdade, inclusive noites bastante mal dormidas, reganhei 10.

E aí quando fui conhecer um pouco do que tinha estudado sobre Alimentação Consciente e Intuitiva, descobri minha verdadeira vocação: Comportamento Alimentar. E estudando, aprendi pra mim. Aprendi para ajudar quem precisa e muita gente precisa, só não sabe que precisa (na maioria das vezes).

Melhorei a minha relação comigo, com a comida e aceitei que é assim. Que restrição não resolve nada.

Que se você quer emagrecer, você precisa encontrar, dentro de você, o real motivo para isso. É pra você ou para os outros? Será que você realmente precisa?

E se você gosta de uma comida, seja um doce ou um salgado, porque não pode? Só porque “engorda”? Será mesmo? Ou existe uma condição de saúde que te obriga a não comer determinado alimento?

Vícios são complicados, né? E, às vezes, a gente fica meio viciado em estar viciado no que não deveria, né?

Ou você come escondido porque os outros vão pensar no que quer que seja e isso te deixa mais ansioso/a e com mais medo e daí acaba comendo mais ainda?

São todos vícios, né?


Já reparou? 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Obesidade, por Richard Barnett - Revista Lancet

Em uma das atualizações semanais da Revista Lancet, veio um artigo maravilhoso sobre a Obesidade, onde o autor aborda questões bastante relevantes ao longo da história e as mudanças que ocorreram ao longo do tempo quando falamos sobre tamanho do corpo humano.

Segue o artigo, traduzido, na íntegra.
Está disponível aqui.

Quando "grande" se torna "obeso"?
Em termos mais técnicos, em que ponto uma variação aceitável no peso corporal se torna uma condição patológica? E como o estilo de vida de um indivíduo torna-se sujeito ao escrutínio público e médico?
Um passeio em torno de qualquer galeria oferece uma visão impressionante sobre estas questões. As estrelas contemporâneas podem preferir as linhas magra e tensas de uma fotografia de Mario Testino, mas bem no Iluminismo, as elites européias favoreceram os amplos e sensuais contornos de Peter Lely e Peter Paul Rubens. Em seus olhos, ser magro era ser subalimentado e sobrecarregado, vulnerável à fome, e facilmente balançado por agitadores políticos. Ser gordo era ser confortável e seguro, incorporando a vida de lazer e prazer que a riqueza e o poder poderiam trazer.
Embora ideais do corpo tenham inchado e diminuído ao longo dos séculos, a maioria das culturas na história parecem ter estabelecido uma distinção entre o agradavelmente arredondado e a gordura mórbida, e têm procurado práticas médicas como respostas.
Obesidade (do Latin obesus, "corpulento") apareceu pela primeira vez em um contexto europeu na Via Trânsito Ad Vitam Longam (1620) do médico inglês Tobias Venner. Venner apresentou a obesidade como um risco ocupacional das classes gentis, e seus tratamentos se inspiraram nas noções clássicas do ars vivendi - a arte de viver. Um indivíduo aflito poderia restaurar seu físico através dos conceitos hipocráticos de regime e do meio caminho, modificando dieta, sono e outros fatores para esculpir um corpo perfeitamente equilibrado, nem magro nem pesado.
Escritores, nos séculos XVIII e XIX, favoreciam "corpulência" como um eufemismo mais suave para a gordura mórbida, e recomendavam que os indivíduos se tratassem em vez de recorrer a um médico. Lord Byron esforçou-se para controlar seu peso flutuante abstendo-se da carne, bebendo vinagre, e fazendo esgrima vestido em roupas pesadas. Uma geração mais tarde, William Banting- agente funerário da Casa Real e durante grande parte de sua vida um homem realmente muito grande - estabeleceu um método de dieta destinado a apelar para a filosofia de autoajuda da crescente classe média. A Carta de Banting sobre Corpulência Dirigida ao Público (1863) enfatizava a autodisciplina, aconselhando os leitores a cortar açúcar, amido, cerveja e gordura. Seu livro vendeu milhares, e "banting" tornou-se um verbo (regime dietético que restringe, em especial, o açúcar, os farináceos e as gorduras).
No início do século 20, uma série de doenças crônicas - doença cardíaca, acidente vascular cerebral, diabetes - foram associadas à obesidade, e tanto o significado quanto o tratamento da obesidade começou a mudar.
Essa mudança foi associada à emergência de sistemas nacionais de saúde pública, à mudança demográfica de uma carga principalmente aguda para uma doença em grande parte crônica e à crescente importância das estatísticas na compreensão da doença ao nível das populações.
Em 1959, a Metropolitan Life Insurance Company em Nova York fez a primeira tentativa de definir um peso ideal saudável usando tabelas atuariais. Ao fazê-lo a empresa criou uma nova definição de obesidade, como 20% acima deste ideal, e determinou o ponto em que suas apólices pagariam o tratamento médico. Esta abordagem enfrentou críticas por não ter em conta os fatores socioeconómicos e o índice de massa corporal (IMC), nomeado pela nutricionista americana Ancel Keys em 1972, foi adotado desde então como uma medida mais precisa da obesidade.

Obesus tem outro significado em latim: grosseiro ou bruto. Se chegássemos a um dos retratos de Rubens e puxássemos seu assunto carnudo e auto-satisfeito para o século 21, eles poderiam ser censurados por sua falta de moderação, ridicularizados por desconsiderar sua aparência ou diagnosticados como um risco para a própria saúde, famílias e sociedade. Desde a Segunda Guerra Mundial, estudiosos das ciências da vida e das ciências sociais identificaram uma crise na imagem corporal e na obesidade, citando as imagens de perfeição física apresentadas nos meios de comunicação de massa, a ascensão da indústria de fast food global, Crescente desigualdade socioeconômica como fatores no aumento do IMC das populações nos países de alta renda. Aconselhamento médico sobre alimentação saudável teve de competir com uma indústria de dieta vasta e lucrativa e paisagens urbanas em que as calorias vazias baratas estão em toda parte. Intervenções mais radicais e controversas como a cirurgia bariátrica começaram a ganhar popularidade no início dos anos 80. A gordura é mais do que uma questão feminista: atravessa as fronteiras de gênero, classe e etnicidade, destacando as tensões entre nossos direitos individuais fetichizados, nosso crescente conhecimento dos riscos para a saúde da obesidade e as exigências coercitivas da cultura pop.

Que tal pensarmos um pouco a respeito disso tudo e pararmos com cobranças desnecessárias, com dietas malucas e hiperrestritivas que só pioram tudo, carregando a grande maioria das pessoas para quadros de compulsão alimentar, deturpando o modo como nos olhamos no espelho e tornando disfuncional a relação com a comida?
Sentir fome, comer, alimentar-se, faz parte da vida e isso é uma exigência fisiológica - sem comida não há vida. São situações intrinsecamente relacionadas.
E, viver de dietas ou, ainda, fazer uma cirurgia bariátrica, sem tratar essas questões/situações, pode resolver a curto prazo, entretanto, o platô surge mais rápido e o reganho de peso, como consequência desta relação disfuncional com a comida é fatídico. Mais da metade dos bariátricos volta a engordar. 
Além disso, esta autopercepção distorcida pode carregar para transtornos alimentares sérios, podendo levar a morte dependendo do caso. 
Quer melhorar, quer mudar, parar com as dietas? Sair desse padrão de ação e comportamento?
Procura uma (um) nutricionista comportamental. Certamente ela (e) poderá ajudar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

As sensações ao redor da comida

Sempre vivi rodeada por comida.
Eu gosto de comer, de preparar, de sentir o aroma, o sabor... Gosto ainda mais de usar a comida para agradar àqueles que gosto e/ou amo - por isso adoro cozinhar para a família, para os amigos, e para o companheiro do coração. E me frustro quando alguém, para quem eu preparei algo, não come. Não gostar não é o problema. O problema é não comer. É como se me desse uma bofetada.

Mas, nem todos são assim. Alguns têm uma relação mais sossegada, outros mais desassossegada, com a comida e assim cada um vai levando.

No meu TCC do aprimoramento trabalhei adesão ao tratamento nutricional com pacientes obesas de um modo indireto - utilizando a Terapia Comportamental, ou, de outro ponto de vista, uma abordagem terapêutica diferenciada, onde falamos sobre hábitos alimentares, consumo, comportamento alimentar, atividade física e tantas outras coisas. 

Meu trabalho foi com idosas. Todas elas com mais de 60 anos. A integrante mais velha do grupo tem 78 anos. E comparece à todos os encontros. Sempre vai sozinha. E sempre participa. A maioria delas só estudou até a 4ª série do ensino fundamental (o antigo primário), algumas só sabem assinar o próprio nome. Falar sobre comportamento, emoção, sentimento e comida para essas moças é uma delícia, ao mesmo tempo que é bastante complicado.

Em uma das reuniões falamos sobre fazer as pazes com o corpo e com a comida - e da relação intrínseca que existe entre o que sentimos e o que comemos.




E é interessante perceber como poucas delas compreenderam a relação intensa que existe entre essas duas razões: comer E sentir. E o mesmo ocorre com outras tantas pessoas - independentemente da idade.


Quantas vezes já partimos atrás de um alimento qualquer por conta de uma emoção não percebida, não verbalizada, não aceita? 

Independentemente de qual seja, em diversos momentos do dia, da semana, do mês ou da vida, recorremos ao chocolate, ao doce, ao pão, ao bolo... Qualquer coisa que esteja disponível, de frente pra gente, ou escondida na gaveta da cômoda, do guarda-roupas ou do criado mudo. Guardado lá justamente para estes momentos, e, mesmo que não surjam os momentos que nos levam a comer, comemos porque está lá.

Ansiedade, medo, dor, angústia, felicidade, tristeza, alegria, euforia, sono... Tédio...

Nada disso é FOME. Isso são sensações. Emoções. Algumas percebidas, outras não. Algumas nos levam a comer mais, a buscar mais comida - seja ela qual for. E, depois disso, pela bronca de já ter 'metido o pé na jaca', aí é que acabamos detonando e comemos tudo mesmo - só de raiva!


Perceber o que sentimos, como sentimos e como nos relacionamos com a comida vai muito além de controlar as sensações, a ansiedade e comer só o "recomendado".

Perceber o que sentimos é sentir e relacionar isso com as situações da vida - pregressa, atual e futura. É notar o quanto a família nos ajuda na formação dos hábitos e preferências alimentares. E, além da família, os amigos, os colegas de trabalho, o tempo que vivemos no transporte... Em tudo o que vivemos há influências na nossa psiquê. Do mesmo modo que a gente também deixa marcas nos outros - sejam quais forem. 

Positivo e Negativo existe em TUDO na vida.

Há algum tempo percebo o quanto os outros deixam marcas em mim. E essas marcas se refletem nas situações do meu dia a dia. E se refletem nas pessoas com as quais convivo - a principal delas eu mesma. 

Não é feio, ou ruim, assumir que está triste ou com raiva e por isso está comendo - ou deixando de comer. Ainda menos se a escolha ou o excesso se der por conta de estar ansiosa ou preocupada com alguma coisa. É preciso compreender isso. 



E, para compreender, é preciso SENTIR. Reconhecer as emoções que estão dentro de nós, aceitá-las e e compreender que, muitas vezes, elas nos levam a escolhas que fazemos mesmo sem perceber e acreditamos que fazemos porque gostamos. 

Ok, gostar de alguma coisa é normal. Comer essa coisa de modo compulsivo, apenas por comer, é que não é. 

Ninguém vive chutando ou batendo a cabeça na parede a todo momento. Portanto, não é normal viver o tempo todo pensando em comer. O que quer que seja.

Sinta, pense, considere, avalie seus sentimentos, suas emoções, suas sensações.

Esse pode ser o primeiro passo para perceber que, talvez, a sua relação com a comida, seja ela qual for, precise de mudanças - para mais ou para menos.

E busque um profissional nutricionista que utilize esta abordagem, para que possa auxiliá-lo a trilhar esse caminho. Não é fácil olhar para dentro de si e ver amor demais, mas mal direcionado. Ou ver tristeza demais, sem motivo aparente. Ou ver incapacidades que talvez não existam. Tanto é possível... E o acompanhamento conjunto com um profissional psicólogo vai auxiliar ainda mais. 

O caminho é longo e complexo, mas é possível de se trilhar. 

É um passo de cada vez. 

Não se sobe uma escada de uma vez, não é mesmo? 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Finitude e Vida...

No último domingo, enquanto esperava o ônibus, fiquei observando um pomba que buscava alimento em meio ao lixo.

Consideramos esse tipo de animais irracionais e então eu fico pensando até que ponto a nossa racionalidade nos é benéfica. Até que ponto ela nos favorece e nos permite trilhar bons caminhos e termos boas atitudes.

Até que ponto a nossa racionalidade nos permite aceitar as coisas como elas são. Aceitar que há coisas que nunca estarão ao nosso alcance controlar.

Neste momento me surgiram dois conceitos interessantes. E talvez seja interessante observar sob um prisma diferente.

Um dos conceitos é o de finitude. Por definição temos que finitude é
  1. qualidade, propriedade ou condição do que é finito;
  2. fato de ser qualitativamente finito, limitado.
Seres vivos são finitos. Afinal, a morte é uma condição da vida. É a única certeza presente a partir do momento em que nascemos. 

É a uma das poucas coisas da vida com a qual não sabemos lidar. E, não saber lidar com a perda, com a finitude nos leva a um patamar complicado, onde são desencadeados sofrimento, angústia, depressão e tantos outros sentimentos que não seria possível nomeá-los.

Isso faz parte da vida. 

Em situações naturais ou não, a morte estará sempre presente.

O outra conceito é o de vida. E ninguém precisa de dicionário para saber sua definição. 

Estar com vida é uma condição incrivelmente fantástica, porém tão corriqueira que não damos a devida atenção ao que precisamos para nos mantermos vivos. Para nos mantermos bem.

Manter uma boa qualidade de vida passa por diversos aspectos, entre eles, a boa alimentação, a saúde emocional, socialização, bem estar.

Falando de saúde emocional podemos pensar nas doenças que mais têm sido diagnosticadas e, algumas vezes, até de modo precipitado, medicadas. Não que depressão e ansiedade não necessitem de medicamentos. Mas, talvez, apenas talvez, uma terapia consiga resolver e, aos poucos, sem usar medicamento, a pessoa consiga se recuperar. Depressão e ansiedade surgem, na maioria das vezes, por não percebermos e não valorizarmos nossos limites e nossas vontades. Ficamos pensando e andando em círculos, na vontade de que algo aconteça do modo como desejamos - mais uma vez, uma situação que não está ao nosso alcance.

Falando de socialização, cada vez mais estamos fechados e presos em celulares e tablets, vivendo vidas virtuais. E as crianças já vivem estas situações. E isso leva à dificuldade de lidar com as coisas da vida, provocando ansiedade, que pode levar à depressão. 

Um círculo vicioso?

E, claro, não poderia faltar, falemos de alimentação. Mas, mais do que isso, falemos de bem estar, de boas sensações, de alegria, de prazer.

Uma alimentação equilibrada nos favorece isso, e muito mais. Quando comemos de modo equilibrado, consumindo todas as comidas que precisamos e, também, as que desejamos, em quantidades adequadas para promover satisfação e que permita ter qualidade, nos sentimos bem. Nos sentimos felizes.

Quando fazemos uma dieta, nos restringimos, excluímos da nossa vida grupos alimentares inteiros, comidas que apreciamos, sem as quais não poderíamos viver sem, isso também provoca problemas.

Entre estes problemas, crises de ansiedade - que podem levar à depressão. E que, fatalmente, levam a quadros de compulsão alimentar. Vontades desesperadoras de comer justamente o que "é proibido".

Contar uma coisa pra vocês: isso leva à situações de doença. E, talvez, não apenas uma doença visível, palpável, mas emocional. Desequilibra todo o organismo. Então pode provocar muitas mudanças, e, quem sabe, piorar quadros já presentes de ansiedade, depressão, síndrome do pânico... E tantas outras coisas podem acontecer...

Existem coisas que estão fora no nosso alcance controlar. 

Nosso corpo, em grande parte por programação genética, está incluso. E não há dieta que modifique programação genética, biotipo. Você pode melhorar seus hábitos alimentares e melhorar seu estilo de vida, mas se seu corpo precisar ficar no peso X, ele vai continuar no peso X, mesmo que você corte um monte de coisas e depois volte a consumi-las. Isso é parte do que chamamos biotipo, programação genética.

Acredito que talvez seja o momento de compreendermos que as propagandas de "emagrecimento definitivo" são falsas e só existem porque as compramos como verdadeiras. 

É hora de tentarmos compreender que existem coisas que não deveriam se modificar, e entre essas está o seu amor próprio e autocuidado

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"Bariatricando"...

O Primeiro Consenso Brasileiro Multissocietário em Cirurgia da Obesidade iniciou suas atividades em novembro de 2004. Pelo Consenso Bariátrico, endossado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) existem alguns critérios para que se possa realizar a cirurgia - bastante conhecida pela alcunha de "Redução do estômago", mas que na verdade envolve algumas pequenas mudanças a mais, além da redução, propriamente dita, do estômago - tais como estreitamento do esôfago e desvio de uma boa parcela do intestino (isso na técnica mais comum que é a de Fobi-Capella ou Bypass em Y-de-Roux).

Em 2013 foram realizadas algumas pequenas mudanças, mas principalmente à necessidade de equipamento e equipes nos hospitais onde se realizam as cirurgias.

Nas imagens abaixo, retiradas do site do G1 (em matéria publicada em 2013, veja a matéria completa aqui), dá pra se ter uma ideia do quanto é invasiva e da probabilidade de reganho de peso. Isso sem falar em outras complicações no pós-cirúrgico tardio.


Tipos de cirurgia realizados no Brasil.


Mas, minha ideia hoje não é falar sobre as vantagens e desvantagens de tal procedimento. Vantagens essa que cada indivíduo avalia conforme a sua própria percepção, aliás. E suas necessidades, claro!

Quando pensei em escrever sobre isso, pensei em falar sobre a qualidade de vida, a redução de peso e alguns critérios, talvez não tão interessantes.

Hoje percebi que faltam 70 dias para completar 11 anos de cirurgia bariátrica. 11 ANOS. É tempo... Uma pré-adolescente, praticamente... hehehehe 

Conheço muita gente que operou, e outros tantos que querem operar. Conheço gente que foi tudo bem e a vida segue numa boa. Conheço gente (eu inclusa) que teve alguns problemas decorrentes da cirurgia, num pós-operatório tardio. 

E, a partir disso, fico me perguntando sobre o que acreditamos realmente ser qualidade de vida. Será que a perda de peso está REALMENTE associada à maior qualidade de vida?

Me graduei em 2015 como nutricionista. Vejo os dois lados: como pessoa, ex-obesa, bariátrica, cheia de necessidades de acompanhamento clínico (como vários outros bariátricos), necessidade de alteração de comportamento alimentar e estilo de vida, fatores psicológicos associados (depressão, ansiedade, etc...) e como profissional nutricionista, que estuda, tenta e busca compreender mecanismos fisiológicos e justificativas para a obesidade enquanto doença e fator predisponente de outras doenças crônicas. Sendo que já há estudos e trabalhos científicos de grande relevância que não classificam a obesidade como doença.

Além de estudar isso, fui atrás de entender diversas outra situações. Fui estudar Comportamento. Uma linha de estudo que muitos associam exclusivamente à Psicologia, mas que, na realidade, envolve tudo onde há um indivíduo inserido, entre eles o ato de comer.

As informações que recebi durante esses 4 anos de faculdade foram boas, mas não foram suficientes [para mim], pois sabendo que não é apenas o consumo alimentar exagerado que promove aumento de peso corporal, eu acredito e quero conhecer os outros fatores. Se fosse apenas o consumo alimentar em excesso, TODAS AS PESSOAS que comem e não engordam também seriam obesas, certo? Mas, isso não acontece. E existem explicações para isso, mas que não vêm ao caso aqui.

Somos categorizados como obesos, basicamente, por um cálculo que envolve 2 valores: Peso e Altura. Ponto. É um IMC acima de 25 kg/m² que o classifica com excesso de peso em algum grau e, consequentemente, como doente. Pois, às vistas da maioria da população e da maioria da classe médica, TODO GORDO É DOENTE.

Até aí, ok, mas cabem ressalvas. Afinal, o que caracteriza um quadro de doença é o estilo de vida que leva a alterações nos marcadores biológicos e metabólicos, não o peso. Sabe por quê? Porque se colocássemos um halterofilista sobre uma balança e calculássemos seu IMC, o resultado seria, certamente, algum grau de excesso de peso. Ao mesmo tempo que, provavelmente, o IMC de um corredor poderia indicar peso abaixo do normal (o que acontece com milhares de pessoas ao redor do mundo, mas que a medicina entende como saudáveis graças aos seus corpos magros e IMC baixo).

Estilo de vida gente. Isso, pra mim, reflete qualidade de vida e saúde.

Sabe... Depois desses 11 anos, e de várias situações intercorrentes, decorrentes, em alguns casos, da cirurgia, coloquei em xeque a melhora do quadro geral pós cirurgia. E eu não sou a única. Vários especialistas questionam. Ao mesmo tempo que vários outros endossam sua importância.

A cirurgia mais comum, o bypass gástrico, é uma cirurgia de grande porte, bastante invasiva, e que provoca alterações em um dos sistemas mais importantes do organismo - o digestório

Com as mudanças no processo de digestão e absorção, todo paciente operado é OBRIGADO a fazer suplementação de micronutrientes, leia-se vitaminas e minerais.

Ou seja, um comprimido ou cápsula para o resto da vida.

Além disso aí, muitos precisam suplementar ferro e vitamina B12 por injeções - daquelas nada agradáveis. Só a agulha do Noripurum® tem 100 mm, afinal, deve ser aplicado intramuscular profundo (na nádega, tá?). Isso quer dizer 10 cm de ferro (ou aço, sei lá) enfiado num dos lados do seu bumbunzinho lindo 1, 2, 3 ou 4 vezes por mês, dependendo do grau de anemia que você desenvolver. Isso se não for necessário fazer um coquetel com tudo isso aí pra tomar por via endovenosa - vulgo "na veia" uma vez por mês, ou mais.

Bom, fora isso, tem o acompanhamento clínico, né?

Ah, e ainda há aqueles que precisam fazer outra cirurgia depois: a colecistectomia. Popularmente chamada de retirada da vesícula.

Na boa, eu detesto ir em médico e tomar remédios. Detesto. Mas, desde que operei, 1 vez por ano tem endoscopia e ultrassom de abdome. Todo dia tem comprimido e as benditas cápsulas de vitamina D. De vez em quando precisa de uma injeção de B12 e mais de vez em quando ainda, de ferro. Exames de sangue a cada 3 ou 6 meses. Agora descobrimos uma osteopenia importante (quase uma osteoporose), então agora também tem densitometria óssea uma vez por ano. Sem contar os dentes, unhas e cabelos fracos. E não adianta muito tomar remédio pra isso - é caro e com a baixa absorção, tem pouca efetividade.

E o risco sempre constante de deficiências nutricionais, sem contar as cãimbras, os entalos, engasgos, dumping e tudo mais associado... E às vezes tudo junto.

Operei com 123,7 kg. Em 7 ou 8 meses, fiquei contente com meus 85 kg, mas o clínico falou que eu iria emagrecer mais. Em um ano estava com 73,8 kg. Magra, porque minha estrutura corporal é grande.

Hoje, olhando algumas referências (da década de 80, que ainda são utilizadas e divulgadas imprudentemente) pra tentar escrever esse texto sem ser tão agressiva e ter alguma base teórica, vi que meu "peso ideal" seria de 60-62 kg. Cara, eu estaria parecendo um cadáver ambulante. Sério. Sério mesmo!

Durante a minha gravidez, por N fatores associados à dificuldade de comer o suficiente e de comer com uma certa regra de horários, engordei 19,8 kg. 5 anos depois, estava com um diagnóstico de esteatose hepática grau II (também conhecida por "gordura no fígado"). Já no penúltimo ano da faculdade, sabia qual era o tratamento para isso: reeducação alimentar e atividade física.

E, agora, tendo estruturado minha linha terapêutica optando por atuar na linha de Comportamento Alimentar, tendo minhas ideias a respeito do quanto está envolvido no comer, nas influências e nas várias questões que provocam a escolha e o consumo de comida, sei bem que isso é o que deveria ser feito MUITO ANTES de se cogitar realizar uma cirurgia desse porte.

Não é tão rápido, claro, mas é muito mais efetivo. E melhor. Afinal, a redução de peso, não sendo o objetivo terapêutico direto, é mais controlada, preservada e sua mente e seu corpo não ficam sofrendo com tantas mudanças repentinas e agressivas.

Resumindo, se fosse hoje, eu não operaria. Salvo, realmente por exceção, se houvesse um risco de vida iminente. Fora isso, dá pra dar jeito. E um jeito bem dado.

Mas o que está feito, está feito e não pode ser desfeito, visto meu risco cirúrgico por outros fatores da vida (que só vim certificar no último ano) e agora é conviver com isso.

Qualidade de vida, saúde e essas cobranças relacionadas de peso e tamanho corporal não tem tanto assim a ver entre si quanto parece.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Li um artigo e...

Encontrei informações bastante interessantes.
Nada conclusivo, obviamente, como de praxe. Aliás, como deveria ser de praxe - UM artigo/estudo, ainda que tenha relevância, não deve apresentar conclusões, mas sugestões e, a partir dele, ampliar. 

É um artigo da Revista Lancet, que fala sobre a Nutrição Pré-Natal, Condições Sócio-ambientais e Desenvolvimento Infantil.

Em 2016 eu resolvi escrever um livro sobre Alimentação para Bebês, baseada na minha experiência enquanto mulher, mãe, nutricionista, pessoa. E, apesar de todas as dificuldades dos primeiros seis meses, do primeiro ano, e de todos os outros dias até aqui, continuamos nas tentativas e no acerto e erro de cada dia. Na próxima semana, meu bebê completa 7 anos e 4 meses. E seguimos nos desafios.

Pelas influências minhas e de todos os que convivem ou conviveram comigo, sempre acreditei que alguns padrões de pensamentos não deveriam (e não devem) ser únicos. E que suplementar a alimentação, nem sempre, é apenas suficiente, tanto quanto é necessário em diversos casos.

Por protocolo mundial, durante a gestação é necessária a suplementação de Ferro e Ácido Fólico (vitamina B9 ou Folato). Na realidade, essa suplementação deveria ter início até uns 90 dias antes da concepção, para a futura mãe já entrar no processo gestacional com reservas adequadas ao desenvolvimento fetal. 

Apesar disso, o foco desse artigo vai muito além disso.

O texto do autor aponta que muito mais se precisa além disso. 

"Em The Lancet Global Health, Prado e co-autores3 acompanharam o grande estudo SUMMIT de micronutrientes múltiplos na Indonésia e analisaram o efeito da suplementação de micronutrientes múltiplos pré-natal (MMN), bem como as associações entre outras condições biomédicas e socioambientais precoces e a cognição das crianças acompanhadas da idade de 9-12 anos. Os pesquisadores avaliaram diferentes aspectos do desenvolvimento cognitivo: capacidade intelectual geral, memória declarativa, memória processual, função executiva, desempenho acadêmico, destreza motora fina e saúde socioemocional."

É necessário um ambiente adequado para o desenvolvimento dessa criança. São necessários estímulos, desde o início da gestação, para que a criança tenha um desenvolvimento pleno. E não apenas micronutrientes. Claro, como o próprio autor cita, 

"Recomenda-se a obtenção de evidências da força relativa de efeitos para os micronutrientes e de associações com outras condições biomédicas e socioambientais para o desenvolvimento. As condições socioambientais, como a educação dos pais, o nível socioeconômico, o ambiente doméstico e a depressão materna, pareciam ser determinantes mais importantes do que os determinantes biológicos medidos."

Porém, talvez seja necessário avaliar os tantos outros aspectos que envolvem o desenvolvimento cognitivo de uma criança - partindo desde a concepção, passando pelo nascimento, a primeira infância, a socialização e a partir de que idade esta socialização se inicia, em que época e através de qual método é iniciada sua alfabetização...

Então, acredito ser bastante plausível quanto o autor questiona se

"É seguro dar apenas micronutrientes múltiplos quando a ingestão de alimentos é insuficiente?"

Pois, muitas vezes, em vários países, estados e cidades no mundo, há escassez de alimentos ou, quando muito, escassez na variedade destes alimentos. O que talvez não justifique que suplementar é inútil, não, mas que deve ser dada maior atenção a esta mãe. E com esta maior atenção, melhor acesso a alimentos em quantidade e qualidade variadas e adequadas.

O autor finaliza apontando que 

"A nova Estratégia Global da ONU para a Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente 2016-309 enfatiza que todas as mulheres, crianças e adolescentes devem ter oportunidades iguais de prosperar e apela a um novo conjunto de prioridades globais de pesquisa. Precisamos melhorar as intervenções e melhorar Seu impacto. Precisamos de mais estudos de acompanhamento de intervenções precoce, como o estudo de Prado e colegas. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável exortam as famílias, as sociedades e os atores globais do desenvolvimento a empenharem-se em cuidar e fornecer oportunidades de aprendizagem. Esses esforços devem ser amplos e incluir saúde, nutrição, educação e proteção à criança. As intervenções devem ser fornecidas ao longo do ciclo de vida. Os programas nacionais e globais são necessários para enfrentar este desafio. Investimentos substanciais no desenvolvimento infantil são a base para o desenvolvimento sustentável nos próximos anos."

Então, a partir disso,  talvez seja bastante plausível questionar se apenas suplementar ferro e ácido fólico é suficiente. 

Talvez seja muito mais interessante garantir alimentação, hidratação, acesso a cuidados de saúde adequados para a mãe, mesmo antes de a mulher engravidar.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Saúde é...

Até que tá ficando bom esse negócio de ter ideias frequentes para escrever... Ou inspiração. 

Esses últimos dias andei conversando com muita gente a respeito de body positive, de ter uma visão mais amorosa e carinhosa com o próprio corpo e o quanto a mídia, a sociedade, a cultura da moda e a indústria da dieta nos fazem acreditar que isso só acontecerá se formos magros.

No meu texto anterior, falo sobre a questão de ser ou não saudável e o quanto isso não está relacionado com ser ou estar magro ou acima do peso.

Hoje, pesquisando imagens de silhuetas femininas para um projeto, não consegui encontrar imagens de silhuetas femininas que representassem mulheres gordas. Mas, para qualquer outro padrão que envolva corpos femininos magros, existe uma variedade enorme.


Inclusive, de silhuetas que fazem alusão à necessidade de emagrecimento... 

Na boa, essas mais gordinhas estão lindas... :) Adorei o vestido! 

Mas, pesquisando um pouco mais, a gente até encontra, uma imagem ou outra que representam esse perfil, mas tem que dar uma garimpada, viu?  

E ainda haverá quem diga que estou sendo 'mimizenta' e que pra ser saudável é necessário emagrecer...

Mas quando buscamos a definição de saúde, recebemos o seguinte texto: "A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e ão consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade."

E sabem que imagens lindas eu achei?



Pensando nisso, acredito que precisamos nos dar mais crédito e tentar menos nos enquadrar em padrões estéticos e modísticos que, muitas vezes, não são os mais adequados para o formato natural de nossos corpos.

E, mais ainda e além disso, pensar que a Nutrição não é a Ciência do Emagrecimento

A Nutrição não é exata. É humana; e da saúde; e biológica; e social. E ela merece um textão só pra ela. :)

Ser feliz com o que se tem e do modo como se é, por muito tempo foi uma afronta aos padrões (e de certo modo ainda é) e muita gente está preparada para criticar de modo cruel e ferrenho. O que nos cabe, à cada ser único e individual e nos grupos em que está inserido, é tentar a cada dia se permitir, se aceitar, se amar... E ser feliz! :)