Tava pensando em vícios...
Ter um vício é algo complicado,
porque qualquer coisa pode ser ou se tornar um vício... Qualquer coisa. Mesmo!
Quer ver?
Algumas pessoas têm vícios de
linguagem... Falam várias e várias vezes as mesmas palavras... Tipo paulista,
que fala ‘tipo’... Ou ‘mano’... Tudo é ‘mano, alguma coisa...’ Tipo assim,
sabe? Às vezes isso irrita, às vezes a gente nem percebe, entende, mano?
Outras pessoas tem vício em
fumar, beber, comer... E esses vícios aí a gente muitas vezes nem percebe como
vícios, né? Chega uma hora que vira hábito, coisa de dia a dia... Além disso,
teoricamente (bem... teoricamente mais ou menos, né?), esses vícios aí são
aceitos pela sociedade... Bom, depende. Às vezes é melhor fumar um cigarro que
usar crack, né? Daí você diz que isso é meio óbvio... Dããã...
Eu concordo. É bem menos pior,
lógico, mas o que realmente diferencia um do outro, de verdade mesmo, é o grau de
aceitação e “viciamento” (ah, eu adoro neologismos esdrúxulos!). Afinal, 2
pedrinhas de crack já viciam. Agora, o cigarro... Pfff... Tem que ter um certo
grau de interesse e vontade pra viciar... Porque, olha... Só quem já fumou ou
experimentou um cigarro sabe. Dá uma dor de cabeça, uma zonzeira, uma desvontade de fumar... Bom, se bem que
eu nunca experimentei a pedrinha pra saber. E espero continuar assim. Mas a
ciência mostra que pouquinho é suficiente, tamanha é a sensação de prazer na
primeira tragada... Deve ser tenso... Então, a partir daí dá pra pensar que
deve ser bastante complicado pra largar. E com o cigarro não é diferente...
Afinal, qualquer um contribui com seu vício: a indústria, os amigos, a cidade,
os medos, os hábitos, as emoções... Até o cara que tá parado no ponto de ônibus
fumando te ajuda quando você não tem um cigarrinho pra matar a vontade que
surge enquanto espera o ônibus chegar. Daí, é batata! É só acender que chega o
ônibus! Parece mágica!
E com a bebida não é lá assim tão
diferente... Precisa um certo esforço pra viciar, porque a sensação no dia
seguinte é péssima! A cabeça parece ser composta por uma orquestra sinfônica
revoltada cheia de violinos e violoncelos desafinados e mal tocados, trompetes
e trombones desajustados e por aí vai... Agora, para largar o vício, pronto!
Fácil, fácil... Nem tem gente no bar disposto a pagar uma dose quando você tá
sem grana. Os amigos nunca te convidam para uma geladinha no final de semana ou
mesmo aquele churrasco ou festinha em família que quase nunca tem uma
cervejinha, uma caipirinha ou, pelo menos, um vinhozinho... Mas, é vinho! E
vinho pode.
Agora me fala da comida... Gente,
gente...
Comida você tem em casa, todo
dia, toda hora. Cigarro e bebida você tem que sair pra comprar (ou fazer
estoque, o que sai bem caro), mas comida?
Cara, comida... Comida é, tipo
assim, básico, né?
(Certo, eu tenho vícios de
linguagem. Normal. Todo mundo tem. Eu não sou perfeita (nem quero ser), apesar
de muita gente pensar que eu ‘me acho’, sabe?... Ai, ai...)
Bom, eu tava falando de comida,
né?
Então...
Comida é complicado, porque a
gente come todo dia, né? Às vezes, toda hora. E, às vezes, nem percebe.
Pode ser um feijão com arroz,
pode ser uma carne, uma panela de brigadeiro ou um pacote de balas de goma...
Tudo entra na categoria comida, não é? E o refrigerante? Ah! Aquela coca-cola©
geladinha, da garrafinha de vidro, suando, recém-aberta, que faz até aquela
coceirinha no nariz, cheinha de gás e sabor... Que delícia!
Meu! (Ah, essa é uma das ‘gírias’ paulistas...)
Você deve estar pensando que sou meio
doida, né?
É, eu sei, parece mesmo. Eu amo comer!
E olha que nem faço isso desde que nasci... E devo fazer até morrer,
provavelmente. (Espero que sim, porque ficar comendo por sonda é um saco! Você
nem sente o gosto de nada... Coisa chata!)
Eu cursei NUTRIÇÃO, né? Sendo assim, eu deveria te dizer que você comer
frutas, legumes e verduras, que você tem que evitar pães e coisas feitas com
trigo (tipo pizza e macarrão! Senhor!), leite e seus derivados (tem lactose,
né? Lactose engorda, né? Sei...), arroz (porque arroz engorda, o legal é
tapioca! Tapioca não tem glúten! Rá!)
Historinha, hein! Isso aí pode
funcionar para uma ou outra pessoa... Pessoas que REALMENTE precisam de alguns
cuidados alimentares.
Mas, olha, se você se enquadrar em
qualquer situação de doença que exija
restrição alimentar, você PRECISA de
acompanhamento nutricional. Não de site na internet nem médico maluco que te
mande “cortar carboidrato” e comer um monte de gordura - ou um monte de
qualquer outra coisa. Daí junto você coloca um suplementozinho, porque é legal
tomar whey – seus rins agradecem, com certeza. Ah, fora o sabor delicinha...
Gente, eu acho ‘lindo’ quando vejo
algumas dietas e ‘prescrições’ fantásticas para “perder 78,2 kg em 27 dias”!
Coma isso, não coma isso. Beba isso, não beba aquilo. Suplementa. Não, não
suplementa. Carbo não pode, proteína é liberado. E agora a nova onda é o ‘low
carb, high fat’. Cara, a galera às vezes nem sabe o que isso significa!
E olha que já vi anúncio de emprego
escrito que a nutricionista tinha que ter conhecimento em dietas LHCF... Triste
demais!
Tá, eu sou chata. E irônica. Sou
mesmo. Mas eu não restrinjo meus pacientes. Minhas crianças (de 60 anos ou mais,
de qualquer outra idade também) comem de tudo e emagrecem, hein! Uma delas
emagreceu 5 kg em 2 meses! E eu nem pedi pra ela parar de comer pão...
E sabe por quê?
Porque restringir não funciona!
E substituir grupo alimentar menos
ainda.
Porque se você para de comer tudo o
que você come e troca por outras coisas, é lógico que vai ter redução do peso.
Mas para a ‘dieta’ para ver. Engorda tudo de volta. Às vezes até mais. E nem
adianta falar que não, porque é a mais pura verdade. Vai dizer que nunca
aconteceu com você?
Olha, vou contar um negócio aqui, em
OFF, só entre nós.
Eu falei que sou nutri, né? Então...
Eu também sou operada do estômago. Aquela tal cirurgia bariátrica, sabe? Faz 11
anos que operei. E aí vêm as perguntas do tipo, “nossa, mas você precisava
mesmo? Parece tão bem...” ou então “nossa! Mas emagreceu? Deu certo?” (tipo
desconfiando, sabe?, porque eu tenho um biotipo grande, então não me encaixo
nos padrões... Nunca usarei 38.). Entretanto, eu normalmente respondo que sim,
emagreci e daí, com orgulho e honra, eu mostro uma foto 3x4 minha, de uns 3
meses antes de operar... E falo que naquela foto eu tava pesando na casa dos
130 kg (oh!)...
Tipo, é meio que impossível conter um
assobio e um arregalar de olhos, né? As olhadas comparativas são
inevitáveis. É, eu sei. E, toda vez que
vejo essa foto eu lembro de tantas, mas tantas coisas... De antes e de
depois... Das razões que me levaram a querer operar (e nenhuma delas era
estética, hein!), dos medos, do processo de recuperação imediato e das mudanças
pra vida... E, além disso, da minha dificuldade em me relacionar com a comida
(mas isso aí persiste, hein!)... E é inevitável que surjam comentários do tipo
“nossa, mas você tá muito bem agora, né? Mais magra, mais bonita...”
E eu, como de praxe, respondo que isso
aí é o de menos, mas lógico que é importante, né? Senão eu não teria feito um
negócio tão drástico assim... Só de pensar que atrasei a chegada do diabetes,
ou das dores nos joelhos e, espero, consiga atrasar mais um pouquinho, já vale
a pena...
Mas, claro, tem sempre a galera que
acha que operar é ser fraco, porque não teve FFF (força, foco, fé)... Aham... Sei...
Quero ver ter uma família que gosta de
comer e que manda muito tem na cozinha. Uma vó que faz uns docinhos de
arrasar... Quero ver você pensar, aos 18 anos, que aos 60 você pode ter um
infarto enquanto come aquele churrasco delicioso, ou aquele croissant de
chocolate...
Ah, a pizza aos quatro queijos, se é
magrinho pode, né?
Mas se é gordo, esquece! Você é,
automaticamente, doente.
Deve viver de água e alface – igual
nutricionista, aliás. Porque, olha... Tem gente que acha que nutricionista é
fiscal de prato e que vive de água, alface e vento ou que faz fotossíntese...
Quero ver você ter vários problemas,
um monte de vícios e muita influência e dar conta de tudo isso e emagrecer uns
40 ou 50 quilos em um ano sem resolver tudo isso. E tudo isso ao mesmo tempo,
hein! Porque, senão, isso é coisa de gente fraca, sem força, foco e fé...
Tá... Vai me dizer que FFF resolve...
Sabe o que resolve?
Resolver seus problemas com você, com
seu corpo, com sua mente, com seu espírito. Resolve se entender que não é o que
se come, mas como, quando e quanto se come. Afinal, não é o que eu como entre o Natal e
o Ano Novo que me engorda, mas o que eu como entre o Ano Novo e o Natal.
Em 2014 eu recebi um diagnóstico de esteatose hepática. Aquela famosa
‘gordura no fígado’. E eu conhecia MUITO BEM a terapêutica. Pra isso não tem remédio, viu? Sabe como faz? Arruma a
alimentação e se movimenta. Só. E com isso, eu mandei embora 14 quilos em 10
meses. Mas, daí, com um monte de problemas psicológicos, depressão, tristeza
extrema e todo o stress do último ano da faculdade, inclusive noites bastante
mal dormidas, reganhei 10.
E aí quando fui conhecer um pouco do
que tinha estudado sobre Alimentação Consciente e Intuitiva,
descobri minha verdadeira vocação: Comportamento Alimentar. E
estudando, aprendi pra mim. Aprendi para ajudar quem precisa e muita gente
precisa, só não sabe que precisa (na maioria das vezes).
Melhorei a minha relação comigo,
com a comida e aceitei que é assim. Que restrição não resolve nada.
Que se você quer emagrecer, você
precisa encontrar, dentro de você, o real motivo para isso. É pra você ou para
os outros? Será que você realmente precisa?
E se você gosta de uma comida,
seja um doce ou um salgado, porque não pode? Só porque “engorda”? Será mesmo?
Ou existe uma condição de saúde que te obriga a não comer determinado alimento?
Vícios são complicados, né? E, às
vezes, a gente fica meio viciado em estar viciado no que não deveria, né?
Ou você come escondido porque os
outros vão pensar no que quer que seja e isso te deixa mais ansioso/a e com
mais medo e daí acaba comendo mais ainda?
São todos vícios, né?
Já reparou?









