sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"Bariatricando"...

O Primeiro Consenso Brasileiro Multissocietário em Cirurgia da Obesidade iniciou suas atividades em novembro de 2004. Pelo Consenso Bariátrico, endossado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) existem alguns critérios para que se possa realizar a cirurgia - bastante conhecida pela alcunha de "Redução do estômago", mas que na verdade envolve algumas pequenas mudanças a mais, além da redução, propriamente dita, do estômago - tais como estreitamento do esôfago e desvio de uma boa parcela do intestino (isso na técnica mais comum que é a de Fobi-Capella ou Bypass em Y-de-Roux).

Em 2013 foram realizadas algumas pequenas mudanças, mas principalmente à necessidade de equipamento e equipes nos hospitais onde se realizam as cirurgias.

Nas imagens abaixo, retiradas do site do G1 (em matéria publicada em 2013, veja a matéria completa aqui), dá pra se ter uma ideia do quanto é invasiva e da probabilidade de reganho de peso. Isso sem falar em outras complicações no pós-cirúrgico tardio.


Tipos de cirurgia realizados no Brasil.


Mas, minha ideia hoje não é falar sobre as vantagens e desvantagens de tal procedimento. Vantagens essa que cada indivíduo avalia conforme a sua própria percepção, aliás. E suas necessidades, claro!

Quando pensei em escrever sobre isso, pensei em falar sobre a qualidade de vida, a redução de peso e alguns critérios, talvez não tão interessantes.

Hoje percebi que faltam 70 dias para completar 11 anos de cirurgia bariátrica. 11 ANOS. É tempo... Uma pré-adolescente, praticamente... hehehehe 

Conheço muita gente que operou, e outros tantos que querem operar. Conheço gente que foi tudo bem e a vida segue numa boa. Conheço gente (eu inclusa) que teve alguns problemas decorrentes da cirurgia, num pós-operatório tardio. 

E, a partir disso, fico me perguntando sobre o que acreditamos realmente ser qualidade de vida. Será que a perda de peso está REALMENTE associada à maior qualidade de vida?

Me graduei em 2015 como nutricionista. Vejo os dois lados: como pessoa, ex-obesa, bariátrica, cheia de necessidades de acompanhamento clínico (como vários outros bariátricos), necessidade de alteração de comportamento alimentar e estilo de vida, fatores psicológicos associados (depressão, ansiedade, etc...) e como profissional nutricionista, que estuda, tenta e busca compreender mecanismos fisiológicos e justificativas para a obesidade enquanto doença e fator predisponente de outras doenças crônicas. Sendo que já há estudos e trabalhos científicos de grande relevância que não classificam a obesidade como doença.

Além de estudar isso, fui atrás de entender diversas outra situações. Fui estudar Comportamento. Uma linha de estudo que muitos associam exclusivamente à Psicologia, mas que, na realidade, envolve tudo onde há um indivíduo inserido, entre eles o ato de comer.

As informações que recebi durante esses 4 anos de faculdade foram boas, mas não foram suficientes [para mim], pois sabendo que não é apenas o consumo alimentar exagerado que promove aumento de peso corporal, eu acredito e quero conhecer os outros fatores. Se fosse apenas o consumo alimentar em excesso, TODAS AS PESSOAS que comem e não engordam também seriam obesas, certo? Mas, isso não acontece. E existem explicações para isso, mas que não vêm ao caso aqui.

Somos categorizados como obesos, basicamente, por um cálculo que envolve 2 valores: Peso e Altura. Ponto. É um IMC acima de 25 kg/m² que o classifica com excesso de peso em algum grau e, consequentemente, como doente. Pois, às vistas da maioria da população e da maioria da classe médica, TODO GORDO É DOENTE.

Até aí, ok, mas cabem ressalvas. Afinal, o que caracteriza um quadro de doença é o estilo de vida que leva a alterações nos marcadores biológicos e metabólicos, não o peso. Sabe por quê? Porque se colocássemos um halterofilista sobre uma balança e calculássemos seu IMC, o resultado seria, certamente, algum grau de excesso de peso. Ao mesmo tempo que, provavelmente, o IMC de um corredor poderia indicar peso abaixo do normal (o que acontece com milhares de pessoas ao redor do mundo, mas que a medicina entende como saudáveis graças aos seus corpos magros e IMC baixo).

Estilo de vida gente. Isso, pra mim, reflete qualidade de vida e saúde.

Sabe... Depois desses 11 anos, e de várias situações intercorrentes, decorrentes, em alguns casos, da cirurgia, coloquei em xeque a melhora do quadro geral pós cirurgia. E eu não sou a única. Vários especialistas questionam. Ao mesmo tempo que vários outros endossam sua importância.

A cirurgia mais comum, o bypass gástrico, é uma cirurgia de grande porte, bastante invasiva, e que provoca alterações em um dos sistemas mais importantes do organismo - o digestório

Com as mudanças no processo de digestão e absorção, todo paciente operado é OBRIGADO a fazer suplementação de micronutrientes, leia-se vitaminas e minerais.

Ou seja, um comprimido ou cápsula para o resto da vida.

Além disso aí, muitos precisam suplementar ferro e vitamina B12 por injeções - daquelas nada agradáveis. Só a agulha do Noripurum® tem 100 mm, afinal, deve ser aplicado intramuscular profundo (na nádega, tá?). Isso quer dizer 10 cm de ferro (ou aço, sei lá) enfiado num dos lados do seu bumbunzinho lindo 1, 2, 3 ou 4 vezes por mês, dependendo do grau de anemia que você desenvolver. Isso se não for necessário fazer um coquetel com tudo isso aí pra tomar por via endovenosa - vulgo "na veia" uma vez por mês, ou mais.

Bom, fora isso, tem o acompanhamento clínico, né?

Ah, e ainda há aqueles que precisam fazer outra cirurgia depois: a colecistectomia. Popularmente chamada de retirada da vesícula.

Na boa, eu detesto ir em médico e tomar remédios. Detesto. Mas, desde que operei, 1 vez por ano tem endoscopia e ultrassom de abdome. Todo dia tem comprimido e as benditas cápsulas de vitamina D. De vez em quando precisa de uma injeção de B12 e mais de vez em quando ainda, de ferro. Exames de sangue a cada 3 ou 6 meses. Agora descobrimos uma osteopenia importante (quase uma osteoporose), então agora também tem densitometria óssea uma vez por ano. Sem contar os dentes, unhas e cabelos fracos. E não adianta muito tomar remédio pra isso - é caro e com a baixa absorção, tem pouca efetividade.

E o risco sempre constante de deficiências nutricionais, sem contar as cãimbras, os entalos, engasgos, dumping e tudo mais associado... E às vezes tudo junto.

Operei com 123,7 kg. Em 7 ou 8 meses, fiquei contente com meus 85 kg, mas o clínico falou que eu iria emagrecer mais. Em um ano estava com 73,8 kg. Magra, porque minha estrutura corporal é grande.

Hoje, olhando algumas referências (da década de 80, que ainda são utilizadas e divulgadas imprudentemente) pra tentar escrever esse texto sem ser tão agressiva e ter alguma base teórica, vi que meu "peso ideal" seria de 60-62 kg. Cara, eu estaria parecendo um cadáver ambulante. Sério. Sério mesmo!

Durante a minha gravidez, por N fatores associados à dificuldade de comer o suficiente e de comer com uma certa regra de horários, engordei 19,8 kg. 5 anos depois, estava com um diagnóstico de esteatose hepática grau II (também conhecida por "gordura no fígado"). Já no penúltimo ano da faculdade, sabia qual era o tratamento para isso: reeducação alimentar e atividade física.

E, agora, tendo estruturado minha linha terapêutica optando por atuar na linha de Comportamento Alimentar, tendo minhas ideias a respeito do quanto está envolvido no comer, nas influências e nas várias questões que provocam a escolha e o consumo de comida, sei bem que isso é o que deveria ser feito MUITO ANTES de se cogitar realizar uma cirurgia desse porte.

Não é tão rápido, claro, mas é muito mais efetivo. E melhor. Afinal, a redução de peso, não sendo o objetivo terapêutico direto, é mais controlada, preservada e sua mente e seu corpo não ficam sofrendo com tantas mudanças repentinas e agressivas.

Resumindo, se fosse hoje, eu não operaria. Salvo, realmente por exceção, se houvesse um risco de vida iminente. Fora isso, dá pra dar jeito. E um jeito bem dado.

Mas o que está feito, está feito e não pode ser desfeito, visto meu risco cirúrgico por outros fatores da vida (que só vim certificar no último ano) e agora é conviver com isso.

Qualidade de vida, saúde e essas cobranças relacionadas de peso e tamanho corporal não tem tanto assim a ver entre si quanto parece.

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