quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Body Positive... Ou seja quem e como você quiser ser.

A pessoa chega na nutricionista, aquele carão, morrendo de vontade de nem ter entrado na sala/consultório.

E já solta um "Ok, nutri, passa a dieta! Vai tirar o quê, o pão, o macarrão, o arroz, minha cervejinha com os amigos?  Vai me mandar pra academia que eu sei... Eu preciso mesmo emagrecer né? Olha essa pança! [E aí puxa, ou tenta puxar, a pele da barriga pra justificar essa fala]

E, oh, contar uma coisa pra vocês... Isso não acontece só com gente nova não, viu?
Tem muita pessoa adulta e idosa que chega com esse discurso. Mas a grande maioria é de mulheres. Fato. Os homens chegam com um discurso mais de saúde ou "porque o médico mandou mas eu não sei o porquê, porque EU NÃO PRECISO EMAGRECER".
E aí tu pesa o velho e dá um IMC de 36, 37... Até pra idoso, isso é obesidade.

Ok, mas o assunto aqui não é obesidade. Nem idosos.

O assunto aqui é  COMO VOCÊ SE VÊ.

Tem gente magra que acha que é gorda e aí faz o que? Dieta.

Tem gente gorda, aterrorizada pela família/amigos/vizinhos, que vai atrás de dieta.

Tem gente na academia, mas muitos não estão lá para fazer uma atividade física que lhes dê prazer. Estão lá para emagrecer. E tome dieta. Nesse caso cheia de batata doce e filé de frango porque PODE... Ah, e tem whey também. Esquece fígado e rins. Associa um detox que tá lindo! :~~

Cara, será que ninguém consegue mais olhar para o corpo do outro e ignorar seu formato? Enxergar a pessoa que existe ali, de verdade?

Cada um é como é e como quer ser e ninguém tem nada com isso. Exceto o próprio dono do corpo em questão - que é quem vai sofrer os amores e desamores de ser quem é.

Ser mulher já é uma 'minipremissa' de "ter que ser magra". Porque "ser magro é ser saudável." Só que não!

Se for uma mulher gorda então... Tá liberado geral todo e qualquer um falar que precisa emagrecer, afinal, "como vai arrumar um namorado gorda desse jeito?"

Ou assim, "você tem um rosto tão lindo, porque não emagrece?  Será que não pensa na sua saúde?"

Agora, se é o cara, o sujeito homem, ele pode ser um pouco mais 'cheinho', porque homem 'grande' protege. A saúde dele não interessa a ninguém. Seu rosto até pode ser lindo, mas ninguém dá a dica pra ele emagrecer.

Ao mesmo tempo, se é magro demais, e entra na academia,  é o frango, o fracote, que não aguenta se colocar uma anilha a mais de cada lado. Mas vai o cara gordo pra academia pra ver? A zoação é imensa se ele não vai pros aparelhos e só faz esteira... Mas ninguém chama ele de frango. Apesar dos risos apontarem o contrário.

E, além do mais, o gordo aprende que "todo gordo é engraçado", e aí via o palhaço da turma, mesmo sem querer. Mesmo chorando por dentro e querendo sumir do mundo.

Gente, tá mais que na hora de parar de criticar, "dar dicas", se "preocupar com a saúde da galera"...

As pessoas são como são... E cada um é como é. E todos são lindos, cada um à sua maneira. E todos também tem histórias, sentimentos, vontades, verdades, amores, dores...

Tá mais que na hora de pensar em si. Mas que tal sermos gentis?
Que tal um elogio, ao invés da crítica?

Seus olhos, seus cabelos, seu modo de pensar, seu modo de se vestir, seu estilo, suas unhas, seu gosto musical, seu gosto para filmes ou séries... O jeito de conversar com outra pessoa, sua positividade, seu sorriso... O bolo maravilhoso de chocolate com cobertura que só você sabe fazer... Ou pode ser o de fubá, ou de cenoura... É dá pra comer sem culpa e com muito amor - por si e pelo bolo [ou qualquer outra comida]...

Todos somos belos, mas estamos deixando que nos digam o contrário e estamos permitindo que isso nos faça sentir menos e menos e menos... Estamos acreditando que temos mais defeitos que qualidades.

E pra mudar isso, não tem que emagrecer não.

Nem todo gordo é saudável, nem todo magro é doente. E o oposto também se aplica.

Estar acima do peso, com mais gordura corporal ou não, traz consequências para o corpo físico a longo prazo, mas isso não quer dizer que seja necessariamente feio, doente...

Minha adolescência e boa parte da minha vida adulta, cansei de ouvir tudo isso. Depressão, tristeza, raiva, sensações de incapacidade, dores...

E, pensando na saúde, há 10 anos e 10 meses operei o estômago. Mais mudanças, elogios, dores, remédios, cuidados e acompanhamento clínico constante. Mais depressão, mais raiva, mal humor... Mas a gente é forte e tem que dar conta. E tenta deixar os outros para lá. Só o travesseiro ou o ralo do chuveiro conhece a verdade.

Mas os outros não te deixam pra lá. E tome crítica - porque você foi fraco,  sem FFF (foco, força, fé) e precisou de artifícios para emagrecer e melhorar algumas coisas que já estavam começando a ficar ruins. Behhh!
Falei que magro é saudável?

Emagrecer, para quem é muito gordo, pode trazer melhora nas doenças que estão se instalando, mas sabe o que acontece antes?

Você MODIFICA hábitos alimentares. RETIRA excessos. Passa a se MOVIMENTAR mais.

E isso se chama modificar COMPORTAMENTO.

MEV. Uma sigla no meio clínico que significa Mudança de Estilo de Vida.

E MEV ajuda qualquer um a melhorar e, de quebra, se sentir bem consigo, sabe por quê?

Porque você passa a prestar mais atenção em você. Nas suas vontades, na sua saciedade, no seu humor, no seu querer. E deixa os outros de lado, falando sozinhos se assim ainda quiserem.

Ser como é, não é crítica, menos ainda demérito.
Magros ou muito magros, gordos ou muito gordos, atrapalhados ou não, cristãos ou não, conhecedores de informática ou não, manjando tudo do que quer que seja ou não.

Cada um é como é. E tá legal ser assim. E se amar e se curtir assim.

E essa conversa que te deprecia ou te entristece, não é pra você.

Pra você é só amor. Seu corpo funciona do modo que precisa, no peso que precisa, no tempo que precisa. Ele é seu e de mais ninguém. (A não ser que você resolva doá-lo para estudo, daí muda de dono mesmo.)

Me dizer que ser magro é ser saudável, quando vejo tantos magros vivendo de fast food, passando o dia sem uma movimentação física qualquer, vivendo de cerveja e cigarros... Ok. Tem gordos que fazem isso também. Isso, sim, é, provavelmente, não ser saudável.

Mas o tamanho do corpo que faz isso, sozinho, não é sinônimo de falta de saúde, quiçá de doença.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Fofos, porém nem tanto...


The same!
Migrei pra cá... :)

Ok, já faz algum tempo... A ideia de fazer postagens regulares está indo por água abaixo... Mas, vamos lá que a vida segue.

Este foi um dos ótimos livros que li em 2016. Técnico, porém nem tanto, onde a autora fala sobre "A Tirania das Dietas" - Dois mil anos de luta contra o peso. E neste livro ela traz MUITA informação histórica sobre os conceitos a respeito do peso corporal, regras alimentares e/ou dietéticas, palpites e muita gente que fez muita grana com base no terrorismo - alimentar e corporal.

E, claro, obviamente, eu volto a questionar padrões, indicações, comportamentos. E me autoquestionar sobre as minhas crenças e minhas condutas e comportamentos alimentares - inclusive aquilo que indico/oriento aos meus pacientes [lembrando que atuo principalmente com idosos, o que torna um pouco complicado de ir pelo comportamento].

Continuo acreditando no fator pessoal, mas agora sei que há muito mais o que se questionar, cobrar e, consequentemente, mudar.

Um dia qualquer de manhã, no serviço, falando sobre uma coisa qualquer, falamos sobre 'focar' no objetivo - Foca, amiga! Foca! E, logicamente, a minha mente vai longe e, automático, lembrei que a foca é um animal gordo e fofo e lindo! 


Quem resiste? <3



E essa carinha, gente, como faz?

Gente, tem como não achar um bicho desses lindo???


E aí, me surgiram outros animais, gordos e lindos! 



Lógico que há vários outros... Mas tem como não achar os ursos super lindos e fofos e tudo de bom? 

Quem nunca teve um urso de pelúcia e desejou ter o maior e mais fofo deles?

E daí eu me perguntei, em voz alta, porque apenas o ser humano não pode ser gordo e bonito...

Por que os padrões desenhados ao longo da história nos obrigam, principalmente às mulheres, a ser magros? Por que o magro é sempre visto como saudável?

Conheço tantas pessoas magras com níveis absurdamente altos de colesterol e triglicérides, diabéticos, com um péssimo hábito e comportamento alimentar... Mas, no momento em que vemos uma pessoa gorda se dirigindo a uma mesa de doces ou do que quer que seja a comida ali presente, automaticamente a julgamos e condenamos.

E nem precisa ser muito gorda pra isso, hein? 

E as cobranças dentro de casa, principalmente com as meninas?

"Nunca vai arrumar um namorado com esse peso" ou "Você tem o rosto tão bonito, por que não emagrece um pouco?"

Essas são as mais clássicas, mas há muitas outras formas de condenar um gordo.

Mas sabe o que é pior? 

Essa crítica, essa perseguição tresloucada à gordura corporal é tão abstrata... Tão pouco palpável em termos de ser ou não saudável, em termos de ser ou não uma pessoa ativa, bonita, amada, desejada... 

Como explicar exames de sangue impecáveis em um gordo? 
Ninguém acredita, nem os médicos. E ainda te olham com cara de interrogação...

Ou uma moça gorda que dança ballet, dança do ventre, pole-dance? 
Impossível, vão dizer. E, se bobear, nem é aprovada no teste pra entrar na escola, hein!

Ou aqueles atletas, gordos e extremamente fortes também?
Tipo, rugby, sumô, lançamento de dardo/peso...

Não dá, gente... 

O fato de uma pessoa ser gorda ou magra não a torna automaticamente doente ou saudável. Menos ainda faz dela uma pessoa bonita ou feia. Cada um tem a sua versão de belo, de feio, de desejável... 

Precisamos aprender que a dieta é o que comemos a cada dia, todos os dias, ao longo da nossa vida. Reeducar para melhorar é bom para todos. Alimentar-se de modo adequado, é benéfico para o corpo de um modo geral. Do mesmo modo, movimentar-se. 

Se isso vai fazer a pessoa perder ou ganhar peso, vai depender de como o corpo dela vai reagir com esse comportamento. 

Mas não dá para parar de comer. Ou substituir ou retirar um grupo alimentar do seu dia a dia. Salvo raras exceções (casos de doenças, alergias e intolerâncias), isso não é nada necessário.

E ter uma alimentação equilibrada te permite comer de tudo e, inclusive, matar uma vontade de vez em quando, sem se preocupar com o peso. 

Peso é consequência de hábitos ao longo da vida. Isso é o que deveria ser entendido e propagado aos sete ventos... Mas bora fazer o contrário pra deixar o povo em pânico. Pânico é mais legal, né?

O resto, é terrorismo da indústria para te fazer acreditar que você não é bonita (o) como é.

E, lógico, desembolsar uma grana para o bolso deles.

Fome de quê?

Tava no outro, migrei pra esse! Vamos ver se vai. ;)

Mais uma tentativa insólita de colocar em palavras meus pensamentos... Espero que dessa vez dê certo!


Pra chegar até o assunto que dá título ao post, preciso falar que ontem fui ao cinema e assisti um filme que queria muito ver. Fui tranquila. Por diversas e diversas vezes parei o carro naquela região sem intercorrência alguma, mas ontem, por infortúnio, ao voltar para o carro, este estava sem as duas rodas/pneus do lado direito - o lado de dentro, que fica pra calçada. 

Cara, que ódio que eu senti naquele momento. Raiva, medo, tristeza, insatisfação... Uma sensação de invasão, de abuso. Frustração e revolta. Meu coração ainda é bem forte, ainda bem, porque senão... 

E isso me leva à questão da fome... Afinal, tantas e tantas vezes descontei minhas emoções na comida e pra mim isso nunca foi novidade. Novidade foi perceber que mesmo conseguindo controlar meus sentimentos, minhas sensações, ainda assim, eu precisei do meu brigadeiro quente. Não ontem à noite, mas hoje, agora, no final da tarde. 

Como nutricionista, atuando na área comportamental, fui, aos poucos, percebendo em mim o que não conseguia ver e que se repetia há tempos: compulsão, desconto das emoções na comida, geralmente de forma bastante negativa. Aos poucos, desde o início do ano para cá, tenho estudado e trabalhado cada vez mais para conseguir enxergar e modificar alguns padrões de comportamento - em mim e em pacientes. Com a minha filha, inclusive (mas santo de casa não faz milagre, não é?).

E, com o susto de ontem, a raiva e a frustração, a vontade que tive quando cheguei em casa era de comer qualquer doce, especialmente chocolate, ou qualquer outra coisa que estivesse pelo caminho. Mas não fiz, porque sei que esse não é o caminho que resolveria meu problema. E, até chegar ao ponto de conseguir perceber isso em mim e tomar essa atitude, foram meses de muito estudo e observação.

Eu amo cozinhar e comer. Minha vida envolve comida em vários aspectos e é interessante perceber o quanto jogamos nossas emoções na comida, muitas vezes sem notar. E fazemos isso por anos a fio... E assim engordamos, mudamos nossos corpos e nossos hábitos alimentares para situações ruins e quando precisamos voltar atrás, o caminho é muito, muito árduo - mas não impossível de trilhar.

Conheço pessoas que descontam emoções na comida de outros modos. Outros descontam no excesso de atividade física. Outros de outras formas... Cada um tem um jeito de transpor as sensações e emoções, é claro.

Mas o interessante é observar como nos comportamos diante dos alimentos, da comida, em geral. Hábitos que se conservam por 5, 8, 10, 20 anos, são difíceis de serem modificados, mas não impossíveis.

Se observe.

Preste atenção no que você está comendo, em quem você é, em como trabalha suas emoções, seus sentimentos, seu querer ou não querer falar algo.

Você tem fome de quê?

E, se precisar de ajuda, estarei por aqui!